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Cavaco por miúdos

O ex-Presidente da República acaba de enriquecer o léxico político com um novo verbo. E ninguém pense em cortar-lhe o pio...

O exercício de criticar o ex-Presidente Cavaco Silva transformou-se numa espécie de desporto a que, por razões de facilidade de expressão, eu chamaria "bater no ceguinho". Mas o próprio Cavaco que, do ponto de vista do perfil psicológico, tem, como todos os tímidos, uma frustrada necessidade de agradar e de que gostem dele, e tanto sofria com as críticas que lhe faziam - e a isso não é estranha a reação aparentemente arrogante, mas, na verdade, defensiva, que mostrou quando disse que não lia jornais... .- já desenvolveu um anti-corpo para tanta tareia. Sobretudo, o último mandato presidencial conferiu-lhe uma espécie de crosta - ou vacina - e hoje como que inverteu os seus sentimentos e consegue retirar prazer do ato de "desagradar" a uma hipotética maioria de críticos. Ainda bem para ele: fica mais livre.

Portanto, "bater no ceguinho" é um desporto que recuso praticar. As linhas seguintes, que são críticas, resultam apenas da mais fria análise que me é possível, a propósito da sua intervenção na Universidade de Verão da JSD. Desculpem se me alongar um pouco, mas vale a pena começar pelo princípio e reconhecer Cavaco "himself", em cada um dos pormenores.

Ao chegar a Castelo de Vide, não resistiu a dizer que se tinha levantado "às seis da manhã". É certo que, a partir de uma certa idade, tendemos a dormir pouco. Mas aqui temos o Cavaco generoso, o homem vigilante e trabalhador, o professor que, citando um seu companheiro de partido (que o disse noutras circunstâncias...), ali está "com sacrifício pessoal". De uma penada, valoriza a sua intervenção, inflaciona o valor da sua presença e dá um exemplo ao País: ele nunca teria subido a pulso na vida se não tivesse hábitos frugais, mesmo espartanos. Levantar às seis da manhã é um bom exemplo para a estudantada da JSD. Tínhamos homem.

No seu discurso, não desiludiu. Inteligente, mordaz, Cavaco Silva ofereceu-nos uma pérola de retórica política, isto, do ponto de vista de quem deseja arregimentar a sua tribo em torno de uma bandeira comum. Cavaco compareceu ali para dar moral às tropas. Eu sei que há quem diga que se substitui ao líder da oposição, que apouca Passos Coelho e que até o prejudica. Mas não acredito nisso. A ajuda de Cavaco foi preciosíssima par Passos. Talvez demasiado isolado na sua cruzada contra a geringonça, até dentro do seu próprio partido, Passos Coelho teve finalmente alguém, não acima de si, mas ao seu lado, avalizado, a dizer mais ou menos as mesmas coisas que ele diz. Diziam o mesmo de Guterres, quando Soares, ainda em Belém, era apontado, por analistas menos atentos, como o verdadeiro líder da oposição. Pois bem: Guterres viria a ganhar duas eleições legislativas consecutivas.

Ainda igual a si próprio, Cavaco Silva falou por meias palavras e disse meias verdades. Às vezes corre-lhe mal - como no caso da meia verdade a propósito da sua reforma, lembram-se? -, mas esta correu-lhe bem. Os destinatários foram devidamente identificados pela audiência. A ideia era que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa enfiassem algumas carapuças. O estilo de Cavaco é discutível. As suas pegas são de cernelha, nunca de caras. A coragem na forma como lança os recados é escassa. Mas não foi sempre assim? Quem não se lembra do artigo sobre a "boa e má moeda" e a Lei de Gresham em que, sem referir ninguém, como que "provocou" a queda de Pedro Santana Lopes de primeiro-ministro?...

O tom é um estilo e esse é matéria de gosto, não de análise. Sobre o conteúdo, queria agora referir dois ou três pontos em que, a meu ver, tem razão - e depois vamos ao resto. Sobre a saída do euro, que alguns dos partidos da geringonça defendem, não podia ser mais certeiro. A galáxia da Venezuela é um buraco negro que nos deve assustar. E é inquietante pensar que temos um Governo dependente do apoio de quem estaria disposto a correr o risco.

Sobre a independência que se deve garantir a reguladores como o Conselho das Finanças Públicas, tem, também, inteira razão. O que não quer dizer que o CFP esteja isento de crítica ou que o Governo, no seu exercício de liberdade de expressão, não possa fazê-lo. Coisa bem diferente seria manobrar na sombra para alterar as regras de nomeação dos seus membros, de forma a transformar o CFP numa correia de transmissão. Estas duas vertentes - a da crítica versus a da tentativa de tutela - são muitas vezes confundidas. Ora, o CFP não só se enganou, ultimamente, algumas vezes, como revelou parcialidade nos seus pareceres. Ao dizer isto, não me passa pela cabeça tornar, via intervenção governamental, o CFP ainda mais parcial e, portanto, irrelevante. São coisas bem diferentes.

Depois, Cavaco Silva faz um apelo para que não consintamos o regresso da "censura". É claro que o ex-PR está a pensar - entre outros episódios mais graves, como o da lei da rolha à Proteção Civil... - no faits divers dos livros da Porto Editora. Tem absoluta razão. Mas Cavaco Silva é o último político mais ou menos no ativo com autoridade moral para se insurgir contra a censura. Foi um seu Governo quem censurou um livro de José Saramago, impedindo "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" de concorrer a um prémio europeu de literatura que, se calhar, teria ganho. Ou seja, não só Cavaco é responsável pelo ato censório mais grave do pós PREC, como ainda terá prejudicado o País.

Bem, foquemo-nos, agora, na questão mais política. E oiçamos duas frases de Cavaco com que tendo a concordar firmemente: «Os que, nos governos, querem realizar a revolução socialista, acabam por perder o pio, ou fingem que piam». E, mais à frente: «O choque com a realidade retira o tapete à ideologia». Independentemente de ter a certeza de não me enganar ao pensar que Cavaco acaba de introduzir no léxico político um verbo que irá pegar - o verbo "piar" -, não podia, como disse atrás, estar mais de acordo. Sobretudo, no que diz respeito à parte da ideologia, que o psicólogo social Steven Pinker define como "um dos cinco demónios da natureza humana que nos impelem à violência". Portanto, até aqui, tudo bem. O pequeno problema é que, com a primeira frase, a dos Governos que querem impôr a revolução, Cavaco não pode estar a referir-se ao nosso País. Talvez, apenas, vagamente, à Grécia de Tsipras. É que, nem no programa eleitoral do PS, nem no seu programa de Governo, nem nas posições conjuntas assinadas com os partidos à sua esquerda alguma vez se vislumbra a mínima suspeita de que se pretenderia, no Governo, fazer a "revolução socialista". Bem pelo contrário: a demanda do cumprimento do défice, o respeito pelo Tratado Orçamental e a garantia do cumprimento dos nossos compromissos internacionais estiveram, desde o início, presentes nas intenções, pelo menos declaradas, de António Costa. Aliás, Cavaco devia sabê-lo bem. E mais, se quisesse gabar-se - e ele é perito nisso... - podia até ter dito que nunca houve qualquer risco de "revolução socialista" nesta solução governativa... graças a ele! É que o Presidente Cavaco Silva impôs determinadas condições a António Costa para que pudesse indigitá-lo primeiro-ministro. Essas condições, que foram apresentadas como garante do "superior interesse nacional", expressão muito cara a Cavaco, rejeitavam a hipótese de qualquer deriva revolucionária. E o PR deu posse ao Governo, supõe-se, porque se sentiu satisfeito com as respetivas garantias. Então, agora, está a confessar que não zelou, afinal, pelo "superior interesse nacional"?... Impossível.

A segunda afirmação, a do choque com a realidade, pode ser interpretada como dirigida aos partidos da chamada extrema esquerda e aos sapos que, em nome da possibilidade de manterem alguma influência ou do desiderato de impedirem o regresso do PSD ao poder, eles têm vindo a engolir. Vai daí, analistas menos atentos disseram que Cavaco fez uma crítica violenta à geringonça. Sim, talvez essa fosse a sua intenção. Mas o que resulta é um elogio! Repare-se bem: se estes partidos, ao chocarem com a realidade, recuaram no seu fundamentalismo revolucionário, quer dizer que se tornaram mais realistas e, quiçá, mais responsáveis. Ou melhor, que o Governo está a conduzir uma política realista e responsável. Pelos vistos, afinal, Cavaco reconhece que eles não tomaram o "Palácio de Inverno" nem fizeram a revolução.

Diga-se, em abono da verdade, que também existe uma "ideologia da realidade", de que Cavaco (e, já agora, o Conselho das Finanças Públicas) parecem ser devotos fiéis. Esta ideologia, que também poderia chamar-se «tecnocracia», não vê a política como a possibilidade de transformar a realidade. Embora deva reconhecer-se que, na conjuntura atual, são raros os casos em que, quando alguém tenta transformar a realidade, o faça para melhor...

Vejamos, agora, o recado dirigido a Marcelo: "A palavra do Presidente deve ser rara". E, depois, dá como exemplo o novo presidente francês, Emmanuel Macron. Ora bem: aqui há, nitidamente, dois estilos diferentes. Cavaco Silva cultiva a contenção da palavra presidencial, supõe-se, para que, quando ela surja, tenha mais peso. Marcelo acha que o escritório do Presidente é na rua, a falar, a intervir, senão, o PR não serve para nada. Há vantagens e inconvenientes nas duas posições - e eu não consigo decidir-me, pelo menos até ao final do atual mandato presidencial, por nenhuma delas. Mas o histórico não ajuda o ex-PR. Apesar de rara, a sua palavra foi demasiadas vezes irrelevante, sobretudo quando pediu, e muito bem, consensos e compromissos políticos, para bem do País, nomeadamente, durante a crise do "irrevogável". Mas tem o benefício da dúvida: acredito que, nos bastidores, segurou muitas vezes as pontas, durante o difícil período da troika, momento em que não se deseja o cargo de Presidente ou primeiro-ministro a ninguém.

Sobre Macrom, está com azar. Desde que assumiu um tom mais reservado, o Presidente francês caíu nas sondagens. E está, de novo, a reverter a sua posição e o seu estilo. Dir-se-á: "Mas a popularidade deve ser o principal objetivo de um político?". Claro que não. Dá-se o caso, porém, de que, enquanto primeiro-ministro, Cavaco sempre tentou preservar a sua própria popularidade, acima de qualquer outro valor. E foi tão bem sucedido, que conseguiu quatro maiorias absolutas, duas das quais como primeiro-ministro, o que é um recorde não igualado.

PS - A Autoeuropa

Antes que os meus leitores descubram a marosca, deixem-me confessar-vos que vou plagiar-me a mim próprio e reproduzir um comentário que fiz a um post de um amigo, numa rede social. Lá vai: "Sem estar muito por dentro, reuni alguns factos sobre a Autoeuropa. Para além das outras compensações (nomeadamente monetárias), está previsto que os trabalhadores tirem a folga compensatória do sábado de trabalho noutro dia. Na restauração, nos transportes, nos hospitais, no jornalismo e em milhentas outras profissões isso também acontece - e nós, os que trabalhamos ao sábado e não trabalhamos na Autoeuropa, também temos filhos (razões de disponibilidade para a família têm sido invocadas). Claro que, no desemprego, haverá muito mais tempo para estar com os filhos. Não sei se será isso que o pessoal da Autoeuropa prefere. Mas são só os da Autoeuropa que têm filhos? E os das outras profissões que trabalham ao sábado, não têm? E será que os de outras profissões ganham tão bem e estão em empresas tão boas como os da Autoeuropa? Historicamente, se há coisa de que não se pode acusar a Autoeuropa é de explorar os seus trabalhadores. Não é de mais pedir um esforço de dois anos e meio, muitíssimo bem recompensado (tudo somado, média de aumentos de 500 euros no rendimento médio), para garantir mais prosperidade, emprego e remuneração. Só à conta do novo modelo já contrataram mais 700 pessoas."

Junto a isto uma perplexidade: os números da greve, avançados pela administração, são de 41% de adesão. Os sindicatos não constestaram esta informação. Ora, se, em plenário, os trabalhadores se decidiram, maioritariamente, pela greve, há qualquer coisa que não bate certo. Deixem-me socorrer-me de novo de Steven Pinker, que tem uma explicação psicológica para isto: «As pessoas podem professar uma crença que não têm, pelo facto de pensarem que todas as outras pessoas a adotam, o que faz com que as crenças em causa possam difundir-se numa sociedade fechada, submetendo-se ao sortilégio de um delírio coletivo". A minha proposta é, pois, a de que, no próximo plenário, o voto seja secreto.