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Marcelo e Lopetegui

Marcelo tem um "plantel" de luxo, mas o seu desafio é não ser o Lopetegui das presidenciais. Para chegar aos "oitavos", tem de suar muito e vestir o fato macaco

«Correndo o risco de ser acusado de hiperatividade...» Este foi apenas um aparte, colocado no meio de uma torrente de palavras, mas o candidato Marcelo Rebelo de Sousa conhece-se bem. Com ele em Belém, vamos ter notícias todos os dias. Há de querer intervir, estar presente, aparecer. Será um Presidente em permanente presidência aberta, num contraste total com o estilo bicho do mato de Cavaco Silva. Será muito mais parecido com Mário Soares do que com Sampaio ou Eanes.

O professor descaíu-se na entrevista à SIC, a mesma em que jura «tudo fazer» para que o Governo minoritário do PS, apoiado por toda a esquerda parlamentar, seja aquilo de que Cavaco Silva duvida: uma solução estável e duradoura. Marcelo, que não quer perder votos à direita (e perdê-los para quem?...) não justificou a promessa pelos bonitos olhos do Governo de António Costa, mas porque «é melhor para o País» ter um governo de legislatura do que mudar de Executivo como quem muda de camisa.

Mas o professor também sabe que não ganhará se não penetrar no eleitorado de esquerda. E quer tudo menos assustá-lo. Instado a comentar os apoios anunciados de Passos Coelho e Paulo Portas, Marcelo torce-se todo, na cadeira, num discurso confuso e arrevezado que não costuma ser o seu mas que tresanda a auto justificação defensiva: «Aceito e agradeço o apoio das pessoas, das instituições ou dos partidos», mas isso não significa que esteja subordinado à doutrina ou às agendas de uns ou outros. E, do mesmo passo, reivindica-se protagonista de uma candidatura «solitária»

Favorito na corrida presidencial, Marcelo é, paradoxalmente, o candidato em maiores dificuldades. Nenhum dos outros tem nada a perder. Mais: se Maria de Belém, ou Sampaio da Nóvoa forçarem uma segunda volta, isso já é uma vitória. E, numa segunda volta, Marcelo será ameaçado pelo fantasma de Freitas do Amaral, em 1986, quando foi vítima da maioria sociológica de esquerda e da disciplina de voto dos comunistas, que, a mando de Álvaro Cunhal, e tapando um dos olhos, votaram massivamente em Mário Soares.

Marcelo é, assim, o candidato que mais tem a perder. Aquele que melhor deve medir as palavras. E o que só ganha se conseguir fazer a quadratura do círculo de agradar à esquerda sem desagradar à direita. Favorito? Talvez, na medida em que Freitas também foi favorito, há 30 anos. Vencedor antecipado? De forma nenhuma.

Percebe-se que Marcelo, sem concorrência à direita, se esforce por lisonjear a esquerda: indo à festa do Avante!; fazendo conferências na Voz do Operário; ensaiando críticas veladas a Cavaco; renegando Ricardo Espírito Santo; ou fazendo profissão de fé no governo de esquerda. Mas o professor tem de ter muito cuidado: o exagero irritará boa parte do eleitorado de direita que, se se sentir ofendido, optará pela abstenção ou pelo voto de protesto, por exemplo, em Henrique Neto, que até já tem o apoio de Medina Carreira... Marcelo Rebelo de Sousa não quererá ser como aquelas equipas de futebol que investem num plantel de luxo e, depois, não conseguem o apuramento para os oitavos de final da champions. Mas, para isso, o seu desafio é não ser o Lopetegui das Presidenciais de 2016. Tem de correr, suar a camisola, vestir o fato de macaco. A campanha não será um passeio.

Ora, o candidato, que esteve 15 anos em prime time e foi campeão de audiências, promete não poluir as rotundas do País com outdoors de propaganda. O gesto é, em sim mesmo, um ato de campanha - que Jerónimo de Sousa, na sua predileção pelos aforismos populares, tentou desmontar à nascença: "Com as calças do meu pai sou eu um homem". Leia-se, "depois de 15 anos a aparecer semanalmente na televisão, assim, também, eu".

Mas a decisão de Marcelo preconiza duas apostas: andar muito na rua e confiança em si próprio nos debates, por via da sua longa experiência televisiva. E essa vai ser uma das curioisidades da campanha: como se safará a ex-estrela da TVI no campo do contraditório, algo que não tinha no sermão televisivo semanal? Em 1989, perdeu o debate, contra todas as expectativas, com Jorge Sampaio, na campanha para Lisboa... A tal em que, conduzindo um taxi ou mergulhando no Tejo, também correu o risco de ser acusado de... hiperatividade.