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Um último olhar sobre as europeias

Boca do Inferno

Naquela noite, a sede do PS estava às moscas, para desgosto da maior parte dos seus militantes, que gostariam que estivesse lotada; e a sede do PSD estava lotada, para desgosto da maior parte dos seus militantes, que gostariam que estivesse às moscas

Como creio que é evidente para todos, as eleições europeias tiveram um único grande derrotado: as empresas de sondagens. Nesse sentido, estranha-se que os nossos canais de televisão não tenham destacado equipas de reportagem para as suas sedes, a fim de acompanhar as reacções dos seus dirigentes. Pessoalmente, gostaria de ter visto um jornalista, num hotel qualquer, a perguntar a Rui Oliveira e Costa se, como é da tradição, já tinha felicitado telefonicamente Nuno Melo pela vitória. E um repórter na Universidade Católica, a registar o discurso de derrota de Pedro Magalhães. No entanto, com a excepção do CDS, toda a gente se referiu às empresas de sondagens como se elas não estivessem a concorrer.

 As sondagens das eleições europeias portuguesas eram, afinal, quase tão fantasiosas como os resultados das eleições nacionais iranianas. Há que dizer, contudo, que não era fácil a tarefa de quem sonda. Boa parte dos resultados eleitorais era quase impossível de prever. A vitória do PSD, por exemplo, acaba por ser surpreendente, sobretudo se tivermos em conta que Paulo Rangel teve de superar algumas dificuldades sérias: a falta de apoio de muitos dos principais militantes do partido, a sua relativa inexperiência política e uma perturbadora semelhança física com o Manelinho, da Mafalda, poderiam ter deitado tudo a perder.

 Outra surpresa: o candidato ideal do PS, percebemo-lo agora, era Basílio Horta. Recordo que, segundo o ministro Manuel Pinho, Paulo Rangel teria de comer muita papa Maizena para chegar aos calcanhares de Basílio Horta. No entanto, e mantendo a metáfora da farinha láctea, que é realmente elegante, Rangel comeu as papas na cabeça de Vital Moreira. Imaginem agora a quantidade de papa Maizena que Vital Moreira teria de comer para chegar aos calcanhares de Basílio Horta.

Uma ironia, também inesperada: Vital Moreira recebeu 26,6% dos votos e os partidos do quadrante ideológico que o candidato do PS abandonou tiveram, juntos, um pouco mais de 21 por cento. Não me lembro de uma diferença tão pequena entre o partido socialista e os partidos que, de facto, desejam o socialismo. Que a diferença se tenha encurtado a este ponto justamente quando o candidato do PS era Vital Moreira prova que o eleitorado tem o sentido do humor.

 Por fim, certos factos da noite eleitoral foram, além de imprevistos, mal interpretados. O contraste entre a triste deserção socialista e a subitamente concorrida festa social-democrata não indica o fim da ideia do Bloco Central, antes reforça as semelhanças entre os dois partidos: naquela noite, a sede do PS estava às moscas, para desgosto da maior parte dos seus militantes, que gostariam que estivesse lotada; e a sede do PSD estava lotada, para desgosto da maior parte dos seus militantes, que gostariam que estivesse às moscas.