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Túnel ao fundo do túnel

Boca do Inferno

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Nem se pode dizer que a alternativa à austeridade é o caos, uma vez que a austeridade já é o caos. Desemprego galopante, espiral recessiva, legislação ilegal. O caos não tem nada para nos oferecer

Quando eu for grande quero ser teórico da austeridade. Formular teorias é difícil, sobretudo porque a realidade, muitas vezes, por falta de informação ou simples pirraça, entretém-se a desmenti-las. Com a austeridade sucede o mesmo, mas não interessa. A austeridade destaca-se, na história das ideias, por uma característica original: não tem alternativa. Até hoje, nenhum outro conjunto de ideias políticas, económicas, filosóficas ou até religiosas foi ousado a ponto de considerar que não tinha alternativa. Até as ditaduras sabem que têm alternativa, e é por isso que a rechaçam, fechando-se. A austeridade não tem alternativa, o que é um sossego. A austeridade pretende controlar o défice mas não consegue. Paciência: não há alternativa. A austeridade aprofunda a recessão e gera desemprego. Paciência: não há alternativa. A austeridade, enfim, não está a funcionar. Nada a fazer: não há alternativa. Poderia pensar-se que, dado o insucesso da austeridade, talvez devêssemos tomar outro caminho, igualmente mal sucedido, mas menos custoso. Prometíamos não abandonar o fracasso, que já percebemos ser fundamental neste processo, e continuar a falhar metas e previsões, mas de uma forma ligeiramente menos dolorosa. No entanto, isso é não perceber que a austeridade, mais do que ser o único caminho para o sucesso, é o único caminho para o falhanço. Vítor Gaspar actualizou Beckett: "Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar pior." Cada vez pior, porque é o único falhanço possível e digno.

Nem se pode dizer que a alternativa à austeridade é o caos, uma vez que a austeridade já é o caos. Desemprego galopante, espiral recessiva, legislação ilegal. O caos não tem nada para nos oferecer. Se quisermos estabilidade política já temos, porque o Governo tem maioria absoluta. Se acharmos que a instabilidade pode ajudar a desbloquear a situação, também já existe, porque um dos partidos do Governo critica semanalmente o outro.

O nosso destino é falhar. Vamos falhar todos juntos. E sem estrebuchar. Há que educar o gosto para a beleza do falhanço colectivo. Imagine que vai ser devorado por um tigre. Fugir do tigre não vale a pena. Não seja lírico. Já lhe disseram que não há alternativa. Lutar com o tigre é inútil (recordo que não há alternativa). O melhor é ficar quieto e deixar-se devorar. E, já agora, deitar uma pitada de sal no lombo, que o tigre gosta da carne apaladada. O trabalho do Governo é tratar deste tempero. Não se preocupe com nada.