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Sacudir o sangue do capote

Boca do Inferno

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Cavaco Silva é o primeiro Presidente da República clandestino da História de Portugal

Ricardo Araújo Pereira

Que farei quando tudo arde?", perguntou Sá de Miranda no século XVI. "Nada", respondeu Cavaco em 2013. Quem esteve 500 anos à espera talvez preferisse uma resposta mais completa, mas esta é menos simples do que parece. O prefácio do novo livro de intervenções públicas do Presidente da República esclarece aqueles rústicos que não sabem apreciar os vários tipos de silêncio nem os benefícios sociais da inacção. Uma coisa é não fazer nada de forma irresponsável; outra, bem diferente, é não fazer nada com profundo sentido de Estado. Cavaco, para nosso bem, optou por esta segunda forma de letargia institucional. Sabendo de antemão que os críticos não teriam o discernimento necessário para distingui-la da inactividade irresponsável, mesmo assim o Presidente arriscou levar a cabo uma inacção prenhe de significado, sustentada por um silêncio extremamente fecundo. Como se isso não fosse já suficientemente trabalhoso, no fim ainda tem de explicar aos ignorantes como funciona a inércia política.

Quem já foi fotografado sabe que, se quer ficar bem na fotografia, o melhor é estar calado. E Cavaco sempre teve a preocupação de ficar bem na fotografia. Daí o silêncio. O Presidente está para a política como John Cage está para a música. Cage compôs a célebre peça 4'33", em que a orquestra fica em silêncio durante quatro minutos e meio; Cavaco tem composto silêncios ainda mais duradouros, como os 35 dias deste ano que esteve sem aparecer. Por sorte, trata-se de um silêncio virtuoso. Segundo escreve no prefácio, Cavaco considera que existe uma "relação inversa entre o protagonismo do Presidente da República e a sua influência efectiva sobre o processo político de decisão". Significa isto que Cavaco tem sido muito influente sobre o processo político de decisão. Infelizmente para os historiadores do futuro, é uma influência operada às escondidas. Cavaco Silva é o primeiro Presidente da República clandestino da História de Portugal. No prefácio ao livro Roteiros VII, nota-se a influência de Saint-Exupéry: Cavaco diz-nos que o essencial da sua acção é invisível aos olhos. É o Principezinho aplicado à Presidência: o Presidentezinho. Também é pequenino, mas de outra maneira.

É interessante que ninguém tenha notado ainda o seguinte: o Presidente não dispõe apenas do poder da palavra. Também influencia pelo exemplo. O estado de hibernação em que frequentemente se encontra constitui uma inspiração para os portugueses. Saibamos todos reduzir as funções vitais de nossos organismos a um mínimo necessário à sobrevivência. Pouparemos energia e reduziremos o consumo, duas condições essenciais para viver melhor em tempos de crise económica profunda.