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Robots de cozinha: um debate sangrento

Boca do Inferno

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Há pessoas que são não-grotescas na vida real e grotescas na internet. São as mesmas pessoas, mas praticam uma espécie de heteronímia on-line

Ricardo Araújo Pereira

A internet difere do mundo real na medida em que alberga mais pessoas grotescas. Esta distinção, embora me pareça cristalinamente verdadeira, não faz qualquer sentido. Em princípio, o facto de um raciocínio ser desprovido de qualquer sentido não me impede de teimar nele, mas este tem um vício demasiado evidente: a internet não pode albergar mais pessoas grotescas do que o mundo real na medida em que todo o universo de pessoas, incluindo as grotescas, habita no mundo real, e só uma parte delas, por maior que seja, tem acesso à internet. 

É possível que seja uma questão de proporção: se nem todas as pessoas não-grotescas possuírem ligação à internet, e a totalidade dos grotescos ceder àquela vontade, aparentemente indómita, de estar on-line, o equilíbrio de forças entre grotescos e não-grotescos altera-se. Também pode ser uma questão de intensidade: pessoas que são apenas ligeiramente grotescas na vida real vão ser fulgurantemente grotescas na internet, simulando assim um mundo com mais gente grotesca. Mas isso seria apenas uma questão de aparência, quando me parece que estamos perante um problema de substância. Há pessoas que são não-grotescas na vida real e grotescas na internet. São as mesmas pessoas, mas praticam uma espécie de heteronímia on-line. São um homem chamado Fernando Pessoa na vida real e um gorila chamado Álvaro de Campos na internet. É isso que explica o seguinte fenómeno: na vida real, não conheço ninguém que coleccione unhas, mas na internet há fóruns com debates, notícias e conselhos práticos para o coleccionador de unhas.

Recentemente, fui alertado para uma polémica online acerca de robots de cozinha. Robots de cozinha são maquinetas onde é possível cozinhar um jantar inteiro de forma prática, cómoda e sujando apenas um recipiente. Chamo a atenção para o facto de ter conseguido descrever um robot de cozinha sem ter entrado num êxtase místico. É uma habilidade inacessível à generalidade dos utilizadores de robots de cozinha, sacerdotes e sacerdotisas dos refogados programados e infalíveis, das sopas mais aveludadas que quaisquer outras e das caipirinhas mais rápidas da história dos cocktails. Pois bem, estes fanáticos reuniam-se em assembleia cibernética para adorar os robots, mas gerou-se uma guerra santa entre os fiéis de robots diferentes. "O meu robot é o original e não tem rival", dizem uns. "O meu é mais barato e faz o mesmo que o teu", respondem os outros. "Impossível", respondem os primeiros, e acrescentam: "O teu robot é de contrafacção." "A comida do teu robot sabe toda ao mesmo", disparam os segundos, ofendidos. "Isso é porque tens a borracha mal lavada", contrapõem os primeiros, entrando em considerações de carácter pessoal. "Merecias morrer", dizem os outros. E foi assim que presenciei uma ameaça de morte por causa da Bimby. Pareceu-me um momento histórico, pelo que fica registado.