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Portugal não é [inserir nome de país ainda mais desgraçado]

Boca do Inferno

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Deve consolar-nos que, por enquanto, possamos continuar a dizer que Portugal não é a Grécia. Mas, como todos sabemos, o ideal era que um dia pudéssemos dizer, finalmente e com propriedade: "Portugal não é Portugal"

Ricardo Araújo Pereira

Portugal não é a Grécia. Já esteve mais longe de ser, mas dizem que ainda não é. Portugal também não é a Irlanda. Durante um tempo parecia mesmo que era, mas afinal a Irlanda está bastante melhor do que nós. Neste momento, ninguém sabe o que Portugal é. Nem o que Portugal não é, o que também acaba por ser inquietante. Já não podemos identificar-nos com os países que estão no bom caminho e começam a faltar países desgraçados dos quais nos possamos destacar.

Compreende-se que Portugal aspire a ser outro país. É o equivalente, para as nações, à formulação infantil "quando for grande quero ser". O problema é que Portugal tem quase 900 anos. É um pouco tarde para estar a escolher saídas profissionais e modelos a seguir. É possível que o nosso tempo tenha passado e Portugal seja agora um país da geração nem-nem: nem trabalha, nem estuda. Não trabalha porque o desemprego continua elevadíssimo; não estuda porque não vale a pena. Não trabalha porque ninguém tem dinheiro para comprar o que as empresas produziriam; não estuda porque já não há fundos europeus para Passos Coelho e Miguel Relvas criarem empresas de formação que ministram cursos para cargos que nunca existiram.

Não sei bem se querer ser a Irlanda revela falta de brio ou ambição desmedida. Aspirar a ser um pequeno país europeu talvez seja sonhar acima das nossas possibilidades. O melhor seria, provavelmente, que Portugal começasse por querer ser um país médio de África, e depois então tentar dar o salto e procurar estar à altura de ser um pequeno país europeu. Ou então apontar realmente para cima e tentar ser, por exemplo, a China. Em termos de direitos laborais e nível salarial já está ela por ela, portanto só falta o crescimento económico, que é o mais fácil.

Talvez esta perspectiva seja demasiado pessimista. Creio que deve consolar-nos que, por enquanto, possamos continuar a dizer que Portugal não é a Grécia. Mas, como todos sabemos, o ideal era que um dia pudéssemos dizer, finalmente e com propriedade: "Portugal não é Portugal."