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Para a compreensão da contestação vocal

Boca do Inferno

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Quem mais vocalmente contesta o que estamos a fazer são aqueles que têm mais", disse esta semana Passos Coelho, também vocalmente. Escutei estas declarações auditivamente e não pude deixar de meditar nelas mentalmente

"Quem mais vocalmente contesta o que estamos a fazer são aqueles que têm mais", disse esta semana Passos Coelho, também vocalmente. Escutei estas declarações auditivamente e não pude deixar de meditar nelas mentalmente. O primeiro aspecto que retive foi a pormenorização feita pelo primeiro-ministro: os que têm mais são os que mais contestam vocalmente. Os que contestam gestualmente, supõe-se, são os que têm apenas alguma coisa, pouco ou nada. Faz sentido que seja gente mais dada a gesticular. Sobram ainda os que, contestando também vocalmente, contestam menos, e que por isso também não pertencem ao grupo dos que têm mais. Há ainda os que não contestam de modo nenhum, que nesta altura são, pelas minhas contas, 132 cidadãos: 108 da bancada parlamentar do PSD e 24 da bancada parlamentar do CDS.

Os vocalistas da contestação, tendo vergonha, receberam as palavras de Passos Coelho com especial rubor. O primeiro-ministro conta-se entre os maiores apreciadores de vocalizações, e só não as pratica mais porque Filipe La Féria, no gesto mais antipatriótico da História de Portugal, o impediu de vocalizar melodias num dos seus espectáculos musicais. Se há crítico abalizado para avaliar o que se vai fazendo vocalmente é o chefe do Governo. Se há juízo que sabe valorizar vocalizações é o dele.

As palavras de Passos Coelho oferecem ainda um retrato sociológico surpreendente. Todos assistimos às manifestações em que um grande número de pessoas contestava vocalmente o que o Governo está a fazer. Ficamos agora a saber que aquelas multidões eram constituídas por aqueles que têm mais. Em retrospectiva, recordo a quantidade enorme de beatas de charuto que cobria o chão, após as marchas. Percebo agora a elegância dos manifestantes, todos vestidos de Armani e Chanel. Compreendo finalmente os engarrafamentos provocados pelos protestos: os vocalizadores foram transportados para a manifestação pelos respectivos motoristas. Mas só tomei consciência disto depois de ouvir a análise do primeiro-ministro. Ali, nas ruas, a empunhar cartazes e a vocalizar palavras de ordem estavam os banqueiros, os accionistas das concessionárias das PPP, os grandes empresários. Se essa gente aguenta mais austeridade? Ai aguenta, aguenta - como disse, com conhecimento de causa, um deles. Na altura, não percebi e discordei. Afinal, estou de acordo.