Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O mundo não quererá fazer o favor de estar quieto?

Boca do Inferno

  • 333

No meu tempo a Rússia achava que o ocidente era demasiado capitalista, agora acha que não o é suficientemente

O mundo tem-me feito desfeitas atrás de desfeitas. Na maior parte das vezes, o mundo entretém-se a mostrar-me que sou estúpido. Admito que, quando isso acontece, o mundo quase não tem de fazer nada para o conseguir. Mas é realmente incrível o trabalho a que o mundo se tem dado para me fazer sentir velho. Todos os dias faz piruetas impossíveis, sem outra justificação que não seja obrigar-me a dizer, como um octogenário, "No meu tempo isto não era assim". A última dessas cabriolas foi esta: neste momento, o regime político que as pessoas ricas preferem é o da Rússia. No meu tempo isto não era assim. Gérard Dépardieu, francês, actor, milionário e reputado bêbado urinador no chão de aviões, pediu a cidadania russa para pagar menos impostos. E obteve-a porque, ao passo que no meu tempo a Rússia achava que o ocidente era demasiado capitalista, agora acha que não o é suficientemente.

No meu tempo, os russos queriam sair para o ocidente. Agora, os ocidentais querem entrar na Rússia. Alguém substituiu a cortina de ferro por aquela cortina que, nos aviões, separa a ralé da primeira classe. E foi rapidíssimo. Todo o mundo é composto de mudança, eu sei. Jamais te banharás duas vezes nas águas do mesmo rio, e tal. De acordo. Mas isto é um exagero. Qual rio, Heraclito? Quais águas? O próprio rio deixou de ser um rio. E já não estamos a banhar-nos em água. Isto é vinho. E Gérard Depardieu está a bebê-lo todo, como é evidente. Não se muda já como soía porque o próprio devir mudou. E ou muito me engano ou está drogado.

Em pouco mais de 20 anos, a Rússia transfigurou-se. Não sei se aguento mudanças do mesmo género nos próximos 20 anos. Receio que a minha saúde não resista ao choque se, em 2033, a Coreia do Norte for um país livre, a Alemanha for um país pobre, e Portugal for um país decente. O sobressalto poderia matar-me. Creio que é isso que o mundo pretende, e o mais triste é que estou convencido de que acabará por consegui-lo. Resta-me retaliar como posso. Vou comprar dois ou três aerossóis bem poluentes e ajustar contas com o mundo. Logo veremos se continuará com vontade de fazer pouco de mim quando tiver a camada de ozono toda esburacada.