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O Governo enquanto maço de cigarras

Boca do Inferno

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A cigarra tem dois desejos: cantar e ficar com uma parte do fruto do trabalho da formiga. Passos Coelho anunciou a intenção de ficar com uma parte do fruto do trabalho dos portugueses e depois foi cantar (para o concerto de Paulo de Carvalho). É, sem tirar nem pôr, o comportamento da cigarra

Os portugueses vivem acima das suas possibilidades. Deviam abandonar a sua zona de conforto e emigrar. Fariam melhor se deixassem de ser piegas. E, além do mais, são preguiçosos, como as cigarras. O povo português é, globalmente, uma cigarra caloteira, lamechas e excedentária. Que o Governo continue interessado em dirigir este lamentável insecto, é quase milagroso. Em lugar de agradecer a gentileza, o povo responde com insultos. O salutar diálogo democrático entre governantes e governados está cada vez mais parecido com uma rixa de trânsito. "Gatunos!" "Calões!" "Saiam do Governo!" "Saiam do País!"

O que ficou escrito acima é a interpretação que os piegas fazem das palavras do ministro Miguel Macedo. A tendência para a lamúria e para a vitimização tolda-lhes a capacidade de análise. Na verdade, a violenta crítica de Miguel Macedo não é dirigida aos portugueses, mas ao primeiro-ministro. Um exame mais atento à fábula da cigarra e da formiga não deixa dúvidas. A cigarra da história tem dois desejos: cantar e ficar com uma parte do fruto do trabalho da formiga. Passos Coelho anunciou a intenção de ficar com uma parte do fruto do trabalho dos portugueses e depois foi cantar (para o concerto de Paulo de Carvalho). É, sem tirar nem pôr, o comportamento da cigarra - e é nocivo para o País, como o ministro da Administração Interna assinalou, e bem.

Há uma contrafábula que consiste numa espécie de sequela da história da cigarra e da formiga. Muitos anos mais tarde, elas voltam a encontrar-se. "O que tens feito?", pergunta a cigarra. "O costume", disse a formiga. "Trabalho que nem uma moura durante o verão para acumular mantimentos que me permitam passar um inverno modesto e com o mínimo essencial. E tu?" Responde a cigarra: "Continuei a cantar e agora vivo em Paris, já esgotei várias vezes o Olympia, tenho uma mansão, um iate..." É então que a formiga diz: "Está certo. Olha, se vires o La Fontaine diz-lhe que vá para o raio que o parta." Talvez a moral da contrafábula seja mais certeira que a da fábula. A cigarra que ocupava a cadeira em que Passos Coelho se senta agora também se fartou de confiscar o fruto do trabalho das formigas e hoje leva uma vida de sonho, precisamente, em Paris. E o mais provável é que, quando voltarmos a encontrá-lo, dentro de uns anos, Passos Coelho tenha uma vida bem melhor que a das formigas. La Fontaine precisa mesmo de ir para o raio que o parta.