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Meus caros Portugiesisch,

Boca do Inferno

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Carta de Angela Merkel aos portugueses

Ricardo Araújo Pereira

Permitam-me que comece por esclarecer que, quando digo "meus caros", meço bem as palavras. De facto, vocês são cada vez mais meus, e continuam a ser bastante caros. Está em curso um processo destinado a tornar-vos mais baratuchos, mas permanecem demasiado dispendiosos para o meu gosto. Creio não estar a ser sexista quando digo que todas as senhoras apreciam um bom saldo, e por isso defendo que as reduções de salário que a austeridade vos está a impor podem e devem ir um pouco mais longe. A Europa precisa de portugueses com 70% de desconto. Duas palavras: liquidação total.

Quero dizer-vos que recebi com muito agrado as vossas várias cartas abertas.

Confesso que achei a maior parte delas pouco macias e absorventes. Sem desprimor para as que tiveram a gentileza de me enviar, prefiro cartas impressas em folha dupla aromatizada. Fica a sugestão, para a nossa correspondência futura.

Também assisti, com muito interesse, ao vídeo que prepararam para nós. Estava muito bem feito e constitui mais um motivo de orgulho para os portugueses porque, na Alemanha, são raros os alunos do 8.º ano que conseguem fazer trabalhos de grupo tão bons. Fiquei surpreendida com as informações contidas no filme.

Não sabia que os portugueses trabalhavam mais horas, tinham menos férias e se reformavam mais tarde do que os alemães.

Qual é a vossa desculpa, então, para viverem muito pior do que nós? Tenho a certeza de que o problema não está nos vossos dirigentes. Todos os que conheço levam muito a sério a missão de servir.

A minha visita ao vosso país foi muito agradável. Vi um povo orgulhoso e bonito. Tanto que propus a Pedro Passos Coelho, simpatiquíssimo capataz, que eu passasse a ter direito de primae noctis uma prática habitual em relações de suserania, como é a nossa. É tempo de retomarmos as belas tradições de outrora.

Fico à espera de notícias acerca de jovens casadoiros. Enviem fotos, por favor.

Em relação à crise, gostaria de vos lembrar que a política económica é 50% psicologia. O problema é que os portugueses sofrem de muitas perturbações mentais. A própria fome é psicológica.

Portugal precisa, sobretudo, de um antidepressivo. Posso recomendar-vos dois ou três, produzidos por excelentes farmacêuticas alemãs. Se quiserem, enviamos. Contra pagamento prévio, que já basta o que basta.

Um beijo austero da vossa Angela Merkel