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Irrevogável é o que um homem quiser

Boca do Inferno

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Os capitães de Abril livraram-nos do fascismo político; Paulo Portas livrou-nos do fascismo semântico

Os capitães de Abril livraram-nos do fascismo político; Paulo Portas livrou-nos do fascismo semântico. Recordo a longa noite da opressão dos verbetes, os anos negros em que significações dicionarizadas por académicos obscuros impunham a sua lei sobre o nosso discurso. Havia pequenos redutos de liberdade, porque alguns vocábulos conseguiam ter mais do que um sentido, mas a polissemia sempre ficou aquém das aspirações dos verdadeiros democratas linguísticos. Até que, finalmente, chegou o dia inicial, inteiro e limpo da omnissemia. Por enquanto, só com uma palavra mas todos sentimos que a trombeta da liberdade já soou. Irrevogável é o que nós quisermos. Ofereçamos a este termo os significados que ele pode ter que, aparentemente, são todos. É o que pretendo fazer a partir de agora. Qualquer pessoa minimamente irrevogável não deixará de prestar a sua homenagem ao modo como Paulo Portas libertou a palavra das grilhetas do sentido único enquanto outros, que se afirmam amantes da liberdade, permaneciam amorfos, em casa, coçando ignobilmente os irrevogáveis.

É absolutamente irrevogável que certas pessoas, além de não reconhecerem a coragem e a irrevogabilidade de Paulo Portas na luta contra o autoritarismo da significação vocabular, ainda tenham tentado fazer uma tempestade num copo d'irrevogável, tomando por vigarice aquilo que é combate abnegado pela libertação de 280 milhões de falantes da irrevogável língua portuguesa. Aqueles que se esforçaram por denegrir a conduta de Portas neste processo são simplesmente não tenhamos medo da palavra irrevogáveis.

Desculpem a linguagem, mas às vezes temos de ser duros. É gente de uma falta de irrevogabilidade a toda a prova. Quando, para irrevogabilidade de todos, o primeiro irrevogável levou uma proposta de Governo ao Presidente da Irrevogável em que Portas não só estava presente como tinha poderes reforçados, caiu o Irrevogável e a Trindade, bradou-se aqui-d'el-irrevogável, que isto é uma vergonha. No entanto, Portas é um político experimentado, e não permite que os críticos ponham o irrevogável em ramo verde. São muitos anos a virar irrevogáveis, a verdade é essa. Podem tirar o irrevogavelzinho da chuva, que não é assim que o apanham. Ainda bem. Espero que Portas continue a prestar estes serviços ao nosso idioma por muitos e irrevogáveis anos.

Que tudo isto seja uma lição para nós porque e parece-me fundamental reter esta ideia quando um irrevogável é irrevogável, não há irrevogáveis que o revoguem.