Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Don't cry for me, Venezuela

Boca do Inferno

  • 333

O presidente venezuelano resolveu antecipar o Natal, para proporcionar uma alegria ao povo; Passos Coelho decidiu prolongar a Quaresma, para proporcionar uma alegria à troika

Ricardo Araújo Pereira

O presidente da Venezuela antecipou o Natal para Novembro e a notícia foi recebida aqui com uma certa superioridade gozona. Portugal, que é um pequeno e pobre país africano, às vezes comporta-se como se pertencesse à Europa rica. Vai uma distância assim tão grande entre as loucuras do governo venezuelano e as do nosso? Vou buscar a fita métrica e já voltamos a falar.

O governo da Venezuela é dirigido por Nicolás Maduro; o governo de Portugal está, ao mesmo tempo, podre e verde. Dos três estádios de evolução da fruta, calharam-nos os dois que não interessam. Uns ministros estão a cair de podres, outros estão verdes para o cargo, e Rui Machete está ambas as coisas: a cada declaração pública, revela ser ao mesmo tempo inexperiente e ultrapassado. 1-0 para Portugal.

Maduro veste-se com as cores da bandeira da Venezuela, envergando garrido um fato de treino que o habilita simultaneamente a governar o país e a treinar o Paços de Ferreira; Paços Coelho veste-se com as cores da bandeira portuguesa, envergando um pin. É patriotismo bacoco na mesma, mas ligeiramente mais discreto. A Venezuela empata: 1-1.

Nicolás Maduro vê Hugo Chávez em todo o lado. Primeiro, ouviu a sua voz no canto de um passarinho, agora viu o seu rosto numas escavações do metro. Passos Coelho vê a retoma económica em todo o lado. A economia portuguesa está tão morta como Hugo Chávez, mas tanto o governo português como o venezuelano garantem que eles ainda vivem. Julgo que é um empate: 2-2.

Na Venezuela, Maduro pediu ao parlamento para governar por decreto, isto é, dirigir o país sem precisar do aval da assembleia. Trata-se, diz ele, de fazer face a um período de guerra económica. Nenhum dirigente internacional minimamente prestigiado o apoia. Em Portugal, Passos Coelho quer governar à margem da constituição. O presidente da comissão europeia, Durão Barroso, concorda com ele. Ou seja, felizmente, também nenhum dirigente internacional minimamente prestigiado o apoia. Novo empate, que coloca o resultado num renhido 3-3.

O presidente venezuelano resolveu antecipar o Natal, para proporcionar uma alegria ao povo; Passos Coelho decidiu prolongar a Quaresma, para proporcionar uma alegria à troika. Em vez de durar 40 dias, a nossa Quaresma promete durar 40 anos. Os venezuelanos têm dois meses de cânticos, festas familiares e trocas de presentes; nós temos quatro décadas de jejuns, penitências e sacrifícios. Portugal recoloca-se em vantagem: 4-3. Não sei bem de que é que estamos a rir.