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Da palhaçada

Boca do Inferno

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Na minha opinião, toda a gente deveria poder dizer o que pensa do PR, e sobretudo deveria poder dizê-lo da maneira que entendesse

Ricardo Araújo Pereira

É uma história que se contava no início do século XIX. Um homem vai ao médico e diz: "Doutor, estou deprimido. Preciso de ajuda." O médico concorda: "O seu caso é muito grave. Só há uma solução para si: tem de ir ver o palhaço Grimaldi." "Mas, doutor", diz o homem, "eu sou o palhaço Grimaldi". Vamos manter presente esta curiosa ocorrência, que ela ainda vai ajudar-nos a compreender, através de um palhaço do passado, as palhaçadas do presente.

Sempre que alguém o critica, Miguel Sousa Tavares acusa o crítico de querer promover-se à sua custa. Ao longo dos anos, vários especialistas em marketing têm optado por essa campanha promocional infalível que consiste em apontar críticas a MST, e ele tem-nos denunciado a todos. A estratégia dos críticos é bastante pueril: uma vez que, até hoje, nunca se descobriu uma razão válida para criticar MST, fica à vista de toda a gente que as críticas só podem fazer parte de um plano de promoção pessoal do crítico.

Esta semana, no âmbito da campanha de promoção do seu novo livro, MST deu uma entrevista em que chamou "palhaço" ao Presidente da República. MST, sendo licenciado em Direito, conhece o código penal, e sabe que insultar o PR gera, como quase tudo o que é ilegal, uma atenção mediática que é muito favorável à promoção de pessoas e bens. Na minha opinião, toda a gente deveria poder dizer o que pensa do PR, e sobretudo deveria poder dizê-lo da maneira que entendesse. Quer o fizesse nos termos de um vulgar carroceiro, numa tasca qualquer (por exemplo: "Este Presidente é mesmo um palhaço"), quer com a sofisticação subtil e a criatividade engenhosa de um escritor (por exemplo: "Este Presidente é mesmo um palhaço"). Há várias maneiras de se dizer o que se pensa, e os escritores, só porque são mais hábeis com as palavras, não deveriam ter um estatuto diferente dos que manejam o idioma de um modo mais grosseiro. Infelizmente, o código penal não concorda comigo e pune tanto carroceiros como escritores.

No próprio dia em que foi publicada a ofensa que dirigiu ao Presidente, MST deu nova entrevista corrigindo a entrevista anterior, e admitiu que se tinha excedido. Ou seja, MST criticou-se a si próprio. Ora, como todos sabemos, a única razão que pode levar alguém a criticar MST é a vontade de se promover à custa dele. Finalmente, alguém se promove à custa de MST com todo o mérito e justiça - o que nos permite reescrever a edificante história inicial. Um homem vai à agência de comunicação e diz: "Doutor, estou a promover um livro numa época em que as pessoas compram muito menos livros. Preciso de ajuda." O director da agência concorda: "O seu caso é muito grave. Só há uma solução para si: tem de criticar o Miguel Sousa Tavares." "Mas, doutor", diz o homem, "eu sou o Miguel Sousa Tavares."