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Contra a austeridade, calar, calar

Boca do Inferno

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Depois da abstenção violenta de Seguro, o silêncio brutal de Portas. Um par de revolucionários com os quais a austeridade cega não contava: dois Che Guevaras da bolinha baixa

Ricardo Araújo Pereira

O leitor que experimente procurar um partidário desta política de austeridade. Tem de procurar bem, porque são cada vez menos. Talvez não seja bom levar a cabo a busca entre os membros do governo, uma vez que esta austeridade também vai perdendo fãs lá. Mas, com trabalho, conseguirá encontrar um. Manifeste-lhe o seu desagrado relativamente ao aumento insuportável dos impostos. Ele não ficará contente. Os tempos estão difíceis para todos. Os críticos da austeridade sofrem com a austeridade. Os partidários da austeridade sofrem com a impertinência dos críticos da austeridade. Felizmente, têm uma boa resposta, que é também uma pergunta: "Qual é a alternativa?" Talvez seja a primeira vez, na história da argumentação, que uma proposta que comprovadamente não funciona só pode ser rebatida por uma alternativa. Normalmente, quando um tratamento não resulta, e até agudiza o problema,  isso costuma ser suficiente para o deter. A austeridade, mesmo tendo agravado o do défice, mesmo falhando todas as previsões, mesmo levando a cobrança de impostos além do exequível, requer uma alternativa sólida. Não pode apenas parar, como costuma suceder com todos os projectos inviáveis. Tem de haver uma alternativa.

Não quero com isto dizer que os críticos da austeridade não devem propor uma solução; quero apenas pôr em causa que os partidários da austeridade tenham proposto alguma. É um caso clássico de "mais vale estar quieto". No entanto, quem exige alternativas acha mesmo que a austeridade é uma proposta séria a ter em conta. Que aumentar brutalmente os impostos é uma ideia complexa, fruto de estudo prolongado e intenso. Por outro lado, propor a substituição de Vítor Gaspar por um chimpanzé não costuma ser visto como uma alternativa credível. Apesar de, muito provavelmente, isso não produzir qualquer diferença nas finanças do país.

Cada pessoa critica a austeridade à sua maneira. Umas, fazem ouvir a sua voz. Paulo Portas, faz ouvir o seu silêncio. Depois de conhecidas as principais medidas do orçamento, Portas castigou o governo com três dias inteiros de silêncio. E depois emitiu um comunicado repleto de subentendidos. "Não, os subentendidos não!", terá guinchado Vítor Gaspar, ainda convalescente do silêncio. Depois da abstenção violenta de Seguro, o silêncio brutal de Portas. Um par de revolucionários com os quais a austeridade cega não contava: dois Che Guevaras da bolinha baixa. No fundo, dois herdeiros dos grandes estadistas do passado: Churchill, Roosevelt e Olof Palme também têm estado muito calados.