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Cartilha paternal

Boca do Inferno

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O facto mais emblemático da minha paternidade é este: nunca comi tanta fruta bichada como desde que sou pai.

Ricardo Araújo Pereira

O leitor conhece, de certeza, o livro O Pai, de Máximo Gorki, a história da luta revolucionária de um viúvo e seu filho, na Rússia czarista. Também já se emocionou com o famoso quadro Composição em Cinza e Preto: Retrato do Pai do Artista, de James McNeill Whistler. A serenidade terna do pai, sentado na cadeira com as mãos pousadas sobre os joelhos, toca todos os que o observam. E também já terá ouvido o comovente Requiem Alemão, em particular o seu quinto andamento, que Brahms compôs em memória de seu pai. Infelizmente, nenhuma destas obras existe. Ou melhor, as obras existem mas todas prestam homenagem à mãe. O mundo borrifa-se nos pais, e a arte limita-se a reproduzir esse menosprezo. Eu tenho a capacidade admirável de tolerar bem as injustiças, desde que elas não me afectem. Quando se tem o carácter suficientemente robusto, como o meu, é possível aliar as qualidades da resignação paciente e da indignação profunda em face da injustiça, consoante ela mortifique cruelmente os outros ou me incomode ao de leve a mim. (Não, amigo leitor, o que acabei de escrever não é um pleonasmo, é um muito aceitável reforço enfático. Se eu fosse mãe, o leitor não torcia o nariz aos meus recursos estilísticos.) Por isso, tolerei com muita nobreza de alma esta iniquidade até ao momento em que passei a ser pai, e a partir daí passei a execrá-la com um ódio também muito nobre.

Já vimos como a figura do pai é desconsiderada na literatura, na pintura e na música, mas essa desconsideração estende-se também às formas de arte mais belas. O mundo da pornografia online é um instrumento indispensável para compreender o nosso tempo, e é por isso que eu o estudo com bastante frequência e minúcia. Há, na pornografia, uma categoria artística chamada MILF, acrónimo de uma ideia que, em português, traduziríamos por Mães Com as Quais Gostaria de Manter um Contacto Íntimo Extremamente Festivo. Essa categoria alberga filmes nos quais jovens rapazes e até respeitáveis senhores manifestam e concretizam o desejo que descrevi acima. No entanto, não existe a categoria simétrica FILF, uma vez que, aparentemente, os pais são completamente desprovidos de sex appeal.

Como pai, recebo esta insinuação com mágoa, mas compreendo-a. A paternidade é feita de sacrifício e tem pouco ou nenhum encanto. Para mim, o facto mais emblemático da minha paternidade é este: nunca comi tanta fruta bichada como desde que sou pai. Antes de as minhas filhas nascerem, abordava fruteiras com uma empáfia que já não tenho. Gostava muito de ler um bom estudo sobre a empáfia na hora de abordar uma fruteira. A altivez da mão que revolve as frutas, o desdém com que afasta as peças tocadas e escolhe a melhor. Que saudades. Agora, procuro a fruta que tiver pior aspecto, corto a parte que é mesmo inaceitável, como o restante e deixo as boas para as miúdas. Os cineastas da internet têm razão: se isto é um homem...