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Boca do Inferno

Sou filho único, mas houve um tempo em que desejei muito ter uma irmã. Foi quando, aos 14 anos, li Os Maias e percebi que dois irmãos podem divertir-se imenso  

Eu sou filho único, mas houve um tempo em que desejei muito ter uma irmã. Foi quando, aos 14 anos, li Os Maias e percebi que dois irmãos podem divertir-se imenso. Após a leitura da obra de Eça de Queirós, compreendi a razão pela qual a fraternidade é um valor tão prezado. Os clássicos iluminam-nos, não há dúvida nenhuma. No entanto, nem todos os leitores podem ter a minha sensibilidade, e por isso é natural que o livro não comova toda a gente como me comoveu a mim. A Fnac acaba de lançar uma campanha que sugere: "Troque Os Maias pela Mayer". O anúncio gerou tanto sarrabulho no Facebook que foi rapidamente retirado. Este caso tem tamanha quantidade de factos a exigir reflexão que até tenho medo que me faça mal.

Primeiro, deve assinalar-se que uma campanha tem de ser mesmo muito canhestra para ser reprovada no Facebook. As pessoas do Facebook são, em geral, fáceis de agradar: declaram amizade umas às outras sem dificuldade nenhuma e qualquer proclamação simples como, por exemplo, "Ui, está tanto frio!", pode receber centenas de polegares aprovadores. Não é fácil irritar gente desta. E, ainda assim, a Fnac conseguiu-o.

Ora, a campanha não era assim tão má. Diz-se que a Fnac propunha um péssimo negócio ao cliente. Como um supermercado que dissesse: "Troque dois quilos de bife do lombo por uma lata de salsichas." Mas o anúncio não referia a quem pertenciam Os Maias e "a Mayer". Quem disse que é o cliente que entrega Os Maias e a Fnac que dá "a Mayer", e não o contrário? A campanha propõe uma troca. Tanto pode ser "Troque os seus Maias pela nossa Mayer" como "Troque os nossos Maias pela sua Mayer". Se nos perguntam: "Queres trocar dois quilos de lombo por uma lata de salsichas?", a resposta correcta é: "Sim, onde é que eu entrego a minha lata de salsichas?"

Além do mais, a troca faz especial sentido. Quem conhece Os Maias e a obra de Stephenie Mayer não pode deixar de verificar uma tautologia evidente. De acordo com a sinopse fornecida pela Wikipédia, os livros de Mayer contam a história de um vampiro vegetariano. É natural que quem tomou contacto com Os Maias apenas através dos apontamentos Europa-América ainda não tenha dado conta da semelhança. Para esses, desvendo um pouco mais do enredo. Sucede que o vampiro se apaixona por uma rapariga por cujo sangue se sente muitíssimo atraído - o que é problemático, uma vez que ela poderia levar a mal que ele lhe cravasse os dentes no pescoço para lhe beber o sangue. Sabe-se como são as mulheres: qualquer pequena coisa as pode indispor. Ou seja, temos um rapaz que se interessa por uma rapariga e o sangue dela constitui um problema. Exactamente a mesma história de Carlos e Maria Eduarda da Maia.