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A culpa morre poliândrica

Boca do Inferno

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Por maldade, diz-se que Portugal não tem um rumo. A verdade é que tem vários

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Quem ainda sonha conseguir, um dia, compreender Portugal, teve muita sorte esta semana. Cavaco Silva disse que o programa de ajustamento não está a resultar e que a culpa é da troika. A troika disse que o programa de ajustamento não está a resultar e que a culpa é do governo. Passos Coelho disse que o programa de ajustamento está a resultar em cheio, e precisa apenas de tempo para implementar o seu modelo táctico e consolidar os automatismos. São declarações que, mais do que fornecer uma explicação para o que se passa, fornecem várias. Quem precisava de uma orientação, obteve três. Por maldade, diz-se que Portugal não tem um rumo. A verdade é que tem vários. As pessoas queixam-se de barriga cheia.

Este mosaico de ideias permite tirar uma ou duas conclusões importantes. Primeiro, dos três intervenientes no debate, Cavaco é o único que ninguém acusa de ter culpa - e bem, pois está cientificamente provado que Cavaco nunca tem culpa de nada. Cavaco diz que a culpa é da troika, o que poderia fazer sentido, na medida em que a expressão "programa de reajustamento da troika" parece atribuir, ainda que muito subtilmente, a autoria do programa à troika. Infelizmente, a troika diz que a culpa é do governo, e a troika tem sido tão boa para nós desde o início que não há razão para acreditarmos que esteja a mentir. No entanto, o governo diz que não tem culpa porque a culpa não existe. A haver culpa é da realidade, que finge estar pior quando, na verdade, está bem.

Talvez seja precipitado tentar indicar o responsável pelo falhanço da resposta à crise quando ainda não se determinou com clareza o responsável pela crise. Nos Estados Unidos, os organismos oficiais designados para apurar essa responsabilidade concluíram que a crise foi causada pela desregulação do mercado, pelos excessos do sistema financeiro e por um vasto leque de aldrabices avulsas em grandes instituições de crédito. Em Portugal, uma comissão informal de economistas e comentadores reuniu-se e, a olho, decidiu que os culpados pela crise eram aqueles que tinham vivido acima das suas possibilidades. Quem eram, exactamente, essas pessoas?, perguntaram alguns ingénuos, esperando uma lista com nomes e moradas. Somos todos nós, responderam os severos comissários, santos agostinhos do pecado económico-financeiro: todos tínhamos estado em falta. Adão pecou e transmitiu-nos o pecado original, e ao mesmo tempo terá contraído uma dívida (provavelmente, junto do proprietário da macieira), transmitindo-nos também o endividamento original. Em resumo, a culpa da crise é de todos, a culpa do fracasso no combate à crise não é de ninguém. Como país, evoluímos da culpa para a não-culpa. É mais um indicador em que estamos a fazer progressos.