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Rambo e a cirurgia estética

A grande questão que o filme coloca acaba por ficar sem resposta. Ninguém, em qualquer altura do enredo, se aproxima do Rambo e diz: “Ó John, olha lá: tu fizeste uma plástica, pá?”

Ilustração: João Fazenda

Como as grandes obras artísticas são as que inquietam e fazem pensar, fui ver o quinto filme da série Rambo. É das mais intrigantes películas que tenho visto, não tanto pelo que é dito, mas sim pelo que deixa por dizer. Trata-se de uma obra que deixa o espectador suspenso, à espera do que nunca surge. A grande questão que o filme coloca acaba por ficar sem resposta. Ninguém, em qualquer altura do enredo, se aproxima do Rambo e diz: “Ó John, olha lá: tu fizeste uma plástica, pá?” Simplesmente não acontece. É óbvio, desde o primeiro fotograma, que John Rambo, veterano da guerra do Vietname, soldado solitário e recatado, se submeteu a uma cirurgia cosmética facial. Mas nunca isso suscita a curiosidade das personagens que se cruzam com ele.

Aguardamos até ao fim do filme que alguém faça a pergunta óbvia, sacie a curiosidade da plateia e permita ao espectador concentrar-se na história. Não custava nada. Logo na abertura, algum amigo podia perguntar a Rambo pela plástica. Ele diria, provavelmente: “Sim, uma vez levei um tiro no Afeganistão e, como precisei de cirurgia reconstrutiva, aproveitei e fiz um lifting. Bom, vamos matar traficantes.” E pronto, ficávamos todos esclarecidos e a história continuava. Mas não. Rambo invade o cartel, começa a rebentar coisas e a gente só pensa: “Espero que, antes de morrer, este bandido pergunte ao Rambo se ele pôs botox na testa.”

O modo como essa inquietação nos tortura, ao longo do filme, faz empalidecer a violência que vemos na tela. Sim, alguns traficantes são trespassados por um pau com pregos, mas dói mais ser atravessado por esta dúvida. Quando é que o Rambo fez a plástica? Optou por Ângelo Rebelo ou por Biscaia Fraga? Com a pele assim esticada continua a conseguir fechar facilmente um olho para fazer mira com a metralhadora? Porque é que ninguém lhe pergunta nada disto?

Não é o único caso perturbador, para um cinéfilo como eu. Há dias via um filme de época em que Maria Antonieta tinha silicone no peito.
Nenhuma das outras personagens estava perturbada. Nem um sobressalto, nem uma expressão interrogativa, nem um duplo olhar. O certo é que acabaram por matá-la. Muito provavelmente por considerarem que ninguém tem o peito assim tão firme a menos que seja bruxa.

(Crónica publicada na VISÃO 1388 de 10 de outubro)