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Inflamações infamantes

A primeira coisa a reter sobre as golas feitas de material inflamável é que não são assim tão inflamáveis. No dia 4 de Julho de 2018, o secretário de Estado da Protecção Civil admitiu num programa da SIC que as golas eram inflamáveis e ninguém se inflamou

A primeira coisa a reter sobre as golas feitas de material inflamável é que não são assim tão inflamáveis. No dia 4 de Julho de 2018, o secretário de Estado da Protecção Civil admitiu num programa da SIC que as golas eram inflamáveis e ninguém se inflamou. Só mais de um ano depois é que a inflamação surgiu. Tudo o que leva mais de um ano a inflamar tem, em princípio, uma boa capacidade anti-inflamatória. No entanto, assim que a inflamação começou, o fogo do ridículo começou a lavrar rapidamente, as labaredas da parvoíce chamuscaram-nos a todos, e o País inteiro acabou a arder no lume vivo da estultícia. Primeiro, a Protecção Civil veio informar que as golas não tinham como objectivo a protecção, mas a sensibilização. Gente com ligações ao Governo ou à respectiva claque acrescentou que seria absurdo que alguém pretendesse usar aquelas golas nas imediações do fogo. Sucede que, naquele programa da SIC, o secretário de Estado tinha respondido à pergunta “Este tecido é não-inflamável?” dizendo: “Não, não é. Deve humedecer-se.” Se a resposta tivesse sido “Claro que não é, uma vez que isto se destina apenas a sensibilizar, pelo que nunca estará em risco de apanhar fagulhas”, não teria havido problema. Assim, levanta-se a questão de saber por que razão se deve humedecer equipamento destinado à sensibilização e que não se destina a ser usado perto de incêndios. Como é óbvio, não sei o suficiente sobre o acto de sensibilizar, e estou disposto a admitir que o humedecimento seja essencial à sensibilização, mas já fui alvo de sensibilizações e nunca tentaram humedecer-me.

Depois, o ministro disse que a notícia sobre o carácter inflamatório das golas era irresponsável e alarmista. Recordo que a notícia tinha sido dada em primeira mão um ano antes pelo secretário de Estado. Dias depois de censurar a irresponsabilidade e o alarmismo das notícias, o ministro pediu um inquérito urgente à situação. Talvez não seja um inquérito para averiguar, mas apenas para sensibilizar – e nesse caso não se compreende a ausência de referências ao humedecimento do inquérito. No meio da polémica, o ministro acusou um repórter da RTP de ter um microfone inflamável – o que, tendo em conta a quantidade de microfones com que as pessoas se equipam para fazer face a incêndios, deve preocupar-nos a todos. Mas finalmente ficou clara a razão pela qual, há uns tempos, Cristiano Ronaldo atirou para um lago um microfone da CMTV: o futebolista quis dar o exemplo e humedecer em directo material inflamável, sensibilizando-nos a todos. Obrigado, Cristiano.

(Crónica publicada na VISÃO 1378 de 1 de agosto)

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