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Portugal é fogo que arde sem se ver maneira de parar

Nunca houve verões tão quentes como nos quatro anos do nosso governo. Não é como nestes quatro anos do vosso governo, em que eu não saio à rua à noite sem um agasalho

Ilustração: João Fazenda

– A culpa é dos eucaliptos, sotôr.

– Não é nada, sotôr, a culpa é de não haver uma política decente de gestão florestal.
– Não, são as alterações climáticas.

– Não, o problema é que os meios de combate são insuficientes e a protecção civil é inoperante.

– Não, aqui há mão criminosa. Isto são incendiários que ateiam fogos ao serviço da oposição para enfraquecer politicamente o governo.

– Disparate, o sotôr quer justificar a incompetência do governo com uma teoria da conspiração.

– Não, o sotôr é que está a fazer um lamentável aproveitamento político de uma situação cuja causa, toda a gente vê, é meteorológica.

– Então e quando o sotôr estava na oposição e dizia que a causa era estrutural e o governo tinha responsabilidades?

– Nessa altura era.

– Não, nessa altura é que a causa era meteorológica, lembro-me bem. Nunca houve verões tão quentes como nos quatro anos do nosso governo. Não é como nestes quatro anos do vosso governo, em que eu não saio à rua à noite sem um agasalho. Ainda não houve um dia de praia como deve ser. E o sotôr, na altura, fez um lamentável aproveitamento político da situação.
– Sotôr, já reparou que nunca há um digno aproveitamento político de situações? O aproveitamento político de situações é sempre lamentável.

– É verdade. Curioso. Bom, onde é que nós íamos?

– O sotôr dizia que eu estava a fazer um lamentável aproveitamento político de uma catástrofe natural, e eu estava a dizer que as responsabilidades do governo eram óbvias.
– Não, sotôr. O sotôr é que está no governo. É a sua vez de dizer que eu estou a fazer um lamentável aproveitamento político de uma catástrofe natural e a minha vez de dizer que as responsabilidades do governo são óbvias.

– Ah, pois é. Exactamente. O sotôr está a aproveitar o sofrimento das pessoas para atacar o governo. É isto?

– É isso, sim. E eu agora digo: não, o sotôr é que não vê que o sofrimento das pessoas é, em grande medida, responsabilidade do governo. O primeiro dever do Estado é proteger os cidadãos, e tal.

– Boa, sotôr. Só que o governo fez tudo o que estava ao seu alcance com os meios disponíveis. Não temos mais meios por causa da pesada herança do seu governo.

– Só que o meu governo teve de arcar com a pesada herança do seu governo.

– Que, por sua vez, teve de arcar com a pesada herança do seu governo.

– Qual?

– Ora, Costa, Passos, Sócrates… Acho que é o do Durão Barroso.

– Pois, só que esse governo teve de arcar com a pesada herança do governo do Guterres.

– Que, como sabe, arcou com a pesada herança do governo do Cavaco. É o que eu lhe digo, sotôr, a culpa é dos eucaliptos.

– Não, o sotôr é que não fez a limpeza das matas.

– Pronto, sotôr, até para o ano.

– Até para o ano, sotôr.

(Crónica publicada na VISÃO 1377 de 25 de julho)

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