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Je ne suis pas New York Times

Isto do humor é tão perigoso, e a ofensa que ele causa tão grave, que talvez seja melhor instituir uma licença de porte de piada

João Fazenda

Há boas notícias e más notícias: as boas são que, se depender do New York Times, mais nenhum cartoonista será morto por ter publicado um cartoon; as más são que não será publicado mais nenhum cartoon no New York Times. A decisão de deixar de publicar cartoons, tomada pelo jornal americano, surge na sequência da decisão de deixar de convidar humoristas para o jantar de correspondentes da Casa Branca. No New York Times, o pretexto foi um cartoon do português António, considerado muito ofensivo. No caso do jantar de correspondentes, a culpa foi de Michelle Wolf, a convidada do ano passado, que também melindrou a sensibilidade de várias pessoas presentes e ausentes. 2019 é, portanto, o ano em que Jorge de Burgos, a personagem de Umberto Eco n’O Nome da Rosa, vence o debate sobre comédia. Há anos que os argumentos do bibliotecário cego tinham vindo a ganhar adeptos. A conversa começou pelas perguntas sonsas: quais são os limites do humor? Ou: para que serve o humor? Os autores das perguntas não estranhavam que não se quisesse investigar os limites da poesia, do teatro ou de qualquer outro discurso não literal. Nem lhes ocorreu que a pergunta “para que serve o humor?” fazia tanto sentido como as também prementes questões “para que serve a nona sinfonia?”, ou “para que serve a Mona Lisa”? Quem ia respondendo que definir um limite era o princípio de um processo irreversível e que o humor não pertencia ao número de coisas que tivessem serventia – como, por exemplo, uma esfregona – era considerado um perigoso radical da liberdade de expressão. Entretanto, instituiu-se que, como aliás se pensava no tempo de Jorge de Burgos, todo o humor é uma agressão. E agredir, evidentemente, é feio. É uma canalhice. Principalmente se o agredido não for o rei. Ora, acontece que, como é óbvio, de facto tem mais graça acertar com uma maçã podre na testa do rei do que na testa do pajem. No entanto, se se decreta que é inadmissível acertar com a maçã na testa do pajem, ele, de certo modo, transforma-se no rei – e por isso torna a ser engraçado que a maçã lhe acerte. Além disso, a ideia de que o pajem, coitadinho, precisa de protecção contra as maçãs podres, é bastante mais ofensiva do que a maçã podre.
Isto do humor é tão perigoso, e a ofensa que ele causa tão grave, que talvez seja melhor instituir uma licença de porte de piada. Os interessados dirigem-se ao ministério, requisitam a licença, e podem então exercer a sua actividade piadística. Mas nunca sobre pessoas. Ou animais. Só sobre objectos inanimados, como o tiro aos pratos. Preparem-se para excelentes piadas sobre loiça.

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