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Um bónus para quem compreender este bónus

O bónus acaba por ser o Rendimento Social de Inserção das pessoas que não são pobres. É, na verdade, um Rendimento de Inserção no Social, porque imagino que o modesto salário de um gestor não chegue para comprar o fraque requerido em certas festas

Ilustração: João Fazenda

A situação é a seguinte: a TAP deu prejuízo e alguns dos seus gestores receberam um bónus. Bónus, já agora, é como se chama quando uma pessoa que usa gravata recebe uma gorjeta. A palavra é diferente porque as pessoas que usam gravata ficariam certamente desconfortáveis se fossem gratificadas da mesma maneira que as pessoas que não usam gravata. A espórtula até era capaz de lhes saber mal. O bónus tem muito mais prestígio do que a gorjeta, além de ter mais zeros. Portanto, foi um bónus. Sucede que, como já foi dito (mas talvez seja importante repetir), a TAP deu prejuízo. A circunstância de os gestores receberem um bónus tem, por isso, três interpretações possíveis: o objectivo da TAP era dar prejuízo, e por isso os gestores estão de parabéns; a TAP deu menos prejuízo do que se esperava, e por isso os gestores estão de parabéns; os gestores são pessoas que, por definição, estão de parabéns, e por isso os gestores estão de parabéns. Creio que a hipótese correcta é esta última.

A parte mais difícil da carreira de gestor é aceder à carreira de gestor. Assim que um gestor se torna gestor, é quase impossível falhar. Há gestores que vão sendo responsáveis por maus resultados e falências em várias empresas, sucessivamente, até serem nomeados para um cargo de supervisor de más práticas de gestão, mesmo antes de se reformarem. Talvez seja melhor usar uma metáfora, para mais fácil esclarecimento de todos os leigos nas complexidades do mundo empresarial: os gestores da TAP são o equivalente corporativo daqueles miúdos apalermados que têm um padrinho rico. O miúdo chumba o ano mas o padrinho premeia-o na mesma, porque tem pena dele. Neste caso, o padrinho rico somos nós. Após uma atribulada mudança no regime de propriedade da TAP, que incluiu uma privatização e uma renacionalização, a empresa acabou por ficar com o estatuto de miúdo apalermado cujo padrinho rico é o Estado. Funciona assim: se o miúdo, por um acaso improvável, for bem-sucedido nos negócios, fica com o dinheiro; se não for, o padrinho rico ampara-lhe a queda e dá-lhe um bónus. O bónus acaba por ser o Rendimento Social de Inserção das pessoas que não são pobres. É, na verdade, um Rendimento de Inserção no Social, porque imagino que o modesto salário de um gestor não chegue para comprar o fraque requerido em certas festas.

(Crónica publicada na VISÃO 1371 de junho de 2019)