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Porco selvagem é o senhor

O facto de cada história acabar com um banquete entusiasmava muito o pequeno alarve que eu era

Ilustração: João Fazenda

Entre as notícias mais interessantes dos últimos tempos conta-se a que revela que Portugal sofre de uma praga de javalis. A existência de javalis costuma ser vista como uma curiosidade adorável, uma plácida ocorrência bucólica. Nunca tendo comido javali, eu já lhe sentia o sabor, por causa dos livros do Astérix. O facto de cada história acabar com um banquete entusiasmava muito o pequeno alarve que eu era. Com os livros dos Cinco era a mesma coisa. Eu não fantasiava muito com as aventuras dos primos que capturavam uma quadrilha de bandidos que estavam escondidos na torre do farol para roubar os planos de um submarino que o tio tinha concebido. Estava mais interessado nas lancharadas que eles faziam, e que me pareciam preparadas com cuidado e gosto. O combate ao crime não me interessava tanto. Portanto, acolho com entusiasmo a notícia de que vai haver debate parlamentar sobre javalis. Tento imaginar como é que a assembleia se dividirá ideologicamente a propósito do javali e tenho dificuldade. Tirando o PAN, que em princípio é a favor da praga, nenhum partido produziu, que eu tivesse visto, pensamento coerente sobre o javali. Na pior das hipóteses, o debate servirá para que os deputados se agridam com insultos inovadores. Por exemplo, proferindo frases tais como: “Na opinião do meu partido, é fundamental acabar com estes porcos selvagens”, enquanto se aponta disfarçadamente para outro grupo parlamentar.

Seja como for, é uma discussão que acompanharei com interesse. Trata-se de um problema difícil: por um lado, a praga de javalis constitui uma ameaça; por outro, é importante tratar dela com alguma humanidade. O destino a dar aos javalis nunca será plenamente satisfatório, sobretudo tendo em conta as duas grandes saídas profissionais que costumam apresentar-se aos javalis portugueses: ou acabam no prato, com batatas fritas, ou num programa de televisão de domingo à noite, a escolher uma noiva. Ambas são bem pouco dignas.Talvez a primeira seja, apesar de tudo, menos má.

(Crónica publicada na VISÃO 1358 de 14 de março)

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