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É mais fácil um camelo passar pelo buraco de um rico

Ricardo Salgado é o maior lesado do BES. Foi quem mais perdeu com a queda do banco. Era o Dono Disto Tudo e deixou de ser. Deve ser terrível perder tanto

Ilustração: João Fazenda

Posso estar a citar com pouco rigor, mas sei que há uma frase bíblica sobre a improbabilidade de acontecerem determinadas coisas a ricos. Às vezes, temos a sensação de que eles são altivos e não têm sentimentos, mas há várias provas do contrário. Ainda esta semana, Ricardo Salgado deu uma entrevista em que confessava: “Consigo dormir, mas não durmo totalmente descansado.” E acrescentou ainda: “Penso todos os dias nos lesados. Todos os dias. E sofro com isso.” O facto de ninguém se ter comovido documenta mais uma vez a profunda crise de valores que a nossa sociedade atravessa. Um homem anuncia em público que, sendo embora capaz de dormir, não consegue fazê-lo totalmente descansado e ninguém se condói, não se ouve um lamento, nada. Além disso, declara que guarda todos os dias um bocadinho para pensar nos lesados do banco que dirigia e nenhum deles foi capaz de lhe agradecer o gesto. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um lesado manifestar compaixão pelo homem que o lesou. Muito feio. E pouco cristão.

A verdade é que Ricardo Salgado é o maior lesado do BES. Foi quem mais perdeu com a queda do banco. Era o Dono Disto Tudo e deixou de ser. Deve ser terrível perder tanto. Ficou reduzido a apenas umas mansões com vista para o mar e, provavelmente, alguns milhões de euros em contas offshore. Ninguém fala neste drama. Olha-se para ele e nota-se a falta de sono – e a magreza. Desde que o BES colapsou, parece ter perdido uns 200 gramas. Talvez 250. Já dá entrevistas a órgãos de comunicação que não controla através da publicidade, e tudo.

Enfim, quando se cai é com estrondo. E o pior de tudo é que, ao contrário dos outros lesados do BES, Ricardo Salgado tem de conviver diariamente com o homem que o lesou. Vai fazer a barba e lá está o outro, no espelho. Segue-o para todo o lado, o provocador. É inevitável que Salgado se irrite quando o vê a almoçar em bons restaurantes de Cascais, ou a ver televisão na sala de estar do seu palácio, ou simplesmente a andar em liberdade. Os outros lesados do BES não têm de assistir a isto. Mas Ricardo Salgado dorme com o homem que o lesou. Não admira que não consiga dormir totalmente descansado.

(Crónica publicada na VISÃO 1357 de 7 de março)

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