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Infâncias peculiares

Luís Miguel, eu percebo que tu gostes de físico-química e se quiseres seguir físico-química no futuro o teu pai e eu apoiamos-te. Mas primeiro está o Fortnite. Jogar só uma ou duas horas todos os dias não te custa nada

Ilustração: João Fazenda

Estás outra vez a estudar físico-química, Luís Miguel? Eu vou esconder esse livro. E o Fortnite? Quando é que tu obténs uma Victory Royale, Luís Miguel?

– É difícil, mãe. E para a semana vou ter teste de físico-química.

– Físico-química, físico-química. Só pensas em físico-química. Valha-me Deus. O teu primo ainda ontem matou 20 utilizadores só com o machado, ainda antes de explorar a ilha à procura de pistolas e munições. Porque é que tu não podes ser mais como o Fábio?

– O Fábio chumbou a físico-química, mãe.

– Ó Luís Miguel, eu percebo que tu gostes de físico-química e se quiseres seguir físico-química no futuro o teu pai e eu apoiamos-te. Mas primeiro está o Fortnite. Jogar só uma ou duas horas todos os dias não te custa nada. E depois então, se quiseres, estudas a tua físico-química. Até te faz bem, para espairecer. Mas assim não. Não me obrigues a pôr-te de castigo.

– Mas é que eu não tenho muito interesse naquilo.

– Não tens interesse. E tens a desfaçatez de o dizer. Sabes o sacrifício que nós estamos a fazer para te pagar as explicações com aquele excelente gamer? Chega de físico-química. Estou a perder a paciência contigo, Luís Miguel. Arruma o livro, liga a PlayStation e põe os auscultadores. Não sais do teu quarto enquanto não jogares três horas de Fortnite.

– Mas é quase hora de jantar.

– Não me interessa. É o que acontece aos meninos que não jogam Fortnite. Tivesses pensado nisso quando estavas a estudar físico-química. Só pensas em fórmulas. E as skins para seres outras personagens? Compro-as eu? Ainda não gastaste os vbucks que o teu pai te comprou em Novembro. Eu nem lhe vou dizer, para não haver problemas. Mas tens de me prometer que jogas, Luís Miguel.

– Mas eu não jogo bem.

– Porque não praticas, Luís Miguel. Eu sei que tu, se te esforçares, consegues passar de nível. Tu não gostas de matar pessoas e derrubar edifícios em busca de material para construir torres no topo das quais podes construir um ponto de mira para snipers, Luís Miguel?

– Sim, mas eu não percebo bem o jogo. Para que é que servia aquele cubo roxo que apareceu na season 6?

– Ninguém percebeu, Luís Miguel. Mas o que não perceberes deixas e avanças. Em vez disso, disparaste contra o cubo roxo e ele matou-te, Luís Miguel.

– Porque quando se disparava contra o cubo ele libertava um relâmpago e eu gostava de ver a reacção química.

– Outra vez a química, Luís Miguel. Mas será que tu não te consegues concentrar em nada sem ir buscar a química? Eu choro todos os dias por tua causa, Luís Miguel.

(Crónica publicada na VISÃO 1352 de 31 de janeiro de 2019)