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O estranho caso da fantochada ridícula

Holmes estava muito habituado a casos diabolicamente intrincados, mas era a primeira vez que se deparava com uma fantochada ridícula

Ilustração: João fazenda

Foi o último caso do meu amigo Holmes. Quando nos bateram à porta, no número 221 B de Baker Street, para nos falarem do furto das armas em Tancos, estávamos longe de imaginar que aquele episódio nos deixaria marcas indeléveis. Holmes estava muito habituado a casos diabolicamente intrincados, mas era a primeira vez que se deparava com uma fantochada ridícula. Tudo começou quando um jornalista português nos pediu ajuda para deslindar um crime: armas tinham sido roubadas de um paiol do exército. Holmes nem pestanejou:

– Inside job – disse. – Foi alguém de dentro. Os paióis militares têm alta segurança que nenhum civil seria capaz de contornar.

– Isso é verdade na maior parte dos países – observou o jornalista. – Mas em Portugal é tudo um bocado à balda.

– À balda… – repetiu Holmes.

Ficou preocupado. O problema apresentava elementos de fantochada ridícula, o único tipo de caso que a sua argúcia extraordinariamente racional não era capaz de resolver.

– Repare que o exército nem foi capaz de dizer ao certo quantas armas tinham desaparecido – disse o jornalista.

– Hum… Só falta dizerem que nem sequer têm a certeza de que existiu um roubo – escarneceu Holmes.

– Foi o que disse o ministro.

Holmes ficou branco. Fizera uma piada parva e afinal a sua conjectura absurda era realidade. Naquele momento, ficara sem dúvidas: estava perante uma fantochada ridícula.

– Watson, isto é uma fantochada ridícula. Vá buscar o meu ópio, por favor.

– Mas Holmes…

– Tenha paciência, meu amigo. Já sabe que só consigo compreender estes casos portugueses se estiver drogado. E mesmo assim é difícil. Ainda não consegui perceber o processo da transferência do Infarmed para o Porto.

– Afinal o Infarmed já não vai para o Porto – informou o jornalista.

– Rápido, Watson, o ópio.

Assim que a droga fez efeito, Holmes começou a delirar e a dizer coisas sem nexo. E aí, sim, começou a acertar no que se passava em Portugal.

– Se calhar o furto foi um favor que os ladrões fizeram, porque as armas não prestavam.

– Sim, isso foi dito.

– Mais ópio, Watson. Entretanto, como as armas eram sucata, os ladrões devolveram-nas.

– Exactamente!

O jornalista estava impressionado.

– Mas devolveram armas a mais.

– Sim! – disse o jornalista. – Mas depois afinal descobriu-se que devolveram a menos.

– Raios! Mais ópio, Watson! O ladrão foi ajudado pela polícia.

– Bravo, sr. Holmes! – gritou o jornalista. O modo como Holmes dizia coisas absurdas que se confirmavam era incrível. – E onde é que o ladrão escondeu as armas?

– Num… num… num parque infantil! Não, num hospital! Nos Jerónimos! – Holmes delirava.

– Foi em casa da avó, sr. Holmes. O ladrão escondeu as armas em casa da sua avozinha.

– Raios, Watson! Mais ópio!

E foram as suas últimas palavras, antes de entrar em coma.

(Crónica publicada na VISÃO 1335, de 4 de outubro de 2018)