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Os coninhas que escondem as pilas

Não me digam que anda por aí uma vaga de moralismo puritano que deseja proteger os cidadãos inocentes de imagens que chocam, canções que indispõem e palavras que fazem dói-dói

Ilustração: João Fazenda

Ah! Oh! Mas que surpresa tão grande! Então não é que a Fundação de Serralves resolveu expor certas fotografias consideradas chocantes numa sala reservada a maiores de 18 anos, quando a tradição, nos museus, é colocar apenas um aviso e deixar ao critério das pessoas a decisão de visitar ou não visitar a exposição? Não me digam que anda por aí uma vaga de moralismo puritano que deseja proteger os cidadãos inocentes de imagens que chocam, canções que indispõem e palavras que fazem dói-dói. Não posso acreditar. Fazia-nos falta, aos surpreendidos, um pastor Martin Niemöller moderno, que descrevesse com eloquência a nossa surpresa, escrevendo: “Primeiro vieram pelo Mark Twain e pela Harper Lee, mas eu não falei – porque também achava que aquela palavra era um bocadinho desagradável. Depois vieram pelo Balthus, mas eu não falei – porque realmente havia uma sexualização extremamente nociva. Depois vieram pelo ‘Hilas e as Ninfas’, mas eu não falei – porque a curadora, coitada, até tinha boas intenções. Quando vieram pelas pilas do Mapplethorpe, finalmente tive tomates – mas já era tarde.”

Talvez seja melhor explicar, esperando que ninguém fique chocado com o relato dos factos extremamente chocantes: a exposição de Robert Mapplethorpe em Serralves inclui fotografias de, digamos, pilas. E de pessoas que têm coisas enfiadas no, por assim dizer, rabo. Numa primeira fase, a Fundação proibiu que certas fotos fossem vistas por menores de 18. Depois, permitiu a entrada de menores, desde que acompanhados pelos pais ou tutores. A favor da Fundação, devo dizer que suspeito de que um jovem de 13 anos, por exemplo, fique chocado com aquelas fotos. E exprima esse choque dizendo: “Isto é parecido com uma coisa que vi há dias no YouPorn, mas esteticamente mais sofisticado e interessante.”

É o choque natural de quem contacta com experiências artísticas.

O mais surpreendente neste caso talvez seja o seguinte: um museu português recebe uma exposição de um artista homossexual com imagens sexualmente explícitas, o que excita pruridozinhos puritanos – e, no entanto, a igreja não disse uma palavra. Eu ainda sou do tempo em que quem fazia esta figura eram bispos. Enfim, vivemos numa sociedade livre e aberta e certos sacerdotes já se conformaram com a derrota. Mas outros ainda estrebucham.

(Crónica publicada na VISÃO 1334, de 27 de setembro de 2018)