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Irmãos Metralha, Dalton e Lehman

O único texto económico que estudei com afinco foi o ‘FMI’, do José Mário Branco

João Fazenda

Passaram dez anos sobre a queda do banco Lehman Brothers e a data foi assinalada por pessoas que ainda não perceberam o que se passou. Eu também ainda não percebi o que se passou, mas ao menos não estou a tentar. Descobri muito cedo que o mundo económico-financeiro era incompreensível, pelo que prefiro não perder tempo a compreender como se perde dinheiro. O único texto económico que estudei com afinco foi o FMI, do José Mário Branco, e a certa altura ele sugere: “entretém-te, filho, e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada”. É um bom conselho, embora contenha um erro. Os gajos não são inteligentes. Toda a gente que agora se pronunciou sobre a crise provocada pelo Lehman Brothers disse que é uma questão de tempo até ocorrer outra crise igual. Ou seja, não houve inteligência para prevenir o que aconteceu nem para evitar que volte a acontecer. A razão pela qual os gajos parecem inteligentes é a do costume: inventaram um jargão impenetrável que dá, a quem não o domina, a sensação de que se está a falar de coisas muito complicadas. É o chamado “método Luís Freitas Lobo”. Toda a gente já viu um jogador de futebol que joga nos flancos a correr para a grande área para tentar ajudar os companheiros do centro da defesa. Mas quando Freitas Lobo diz que determinado lateral está a fazer a “basculação interior e dobrar nas costas dos centrais”, deixamos de saber exactamente o que se passa. É de propósito.

O vocabulário económico-financeiro é a um tempo mais imaginativo e mais simples do que o do futebol, uma vez que consiste numa tentativa de dizer sempre a mesma coisa mas de modos obscuros diferentes. Por exemplo, “créditos subprime” significa, na verdade, “ganância de sacar o máximo dinheiro a quem deseja comprar casa”. “Produtos de risco” quer dizer “ganância superior à ganância habitual”. “Chancela de qualidade das agências de rating” significa “licença para ser ganancioso”. “Non-performing loans” é outro modo de descrever “casos em que a ganância era de tal forma desmedida que acabou por correr tragicamente mal”. E é tudo. Posto isto, não há muito mais a fazer do que uma pessoa entreter-se e ir para a cama descansada.

(Crónica publicada na VISÃO 1333, de 20 de setembro de 2018)