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Não há machadinha que corte a raiz ao pensamento

Às vezes decido acabar uma SMS escrevendo: “Um abraço do Ricardo.” Sucede que, sempre que começo a escrever o meu nome, o telefone sugere a palavra “ridículo”. Até hoje nunca aceitei a sugestão, mas o telefone mantém a convicção de que eu deveria despedir-me dizendo: “Um abraço do Ridículo”

João Fazenda

Às vezes decido acabar uma SMS escrevendo: “Um abraço do Ricardo.” Sucede que, sempre que começo a escrever o meu nome, o telefone sugere a palavra “ridículo”. Até hoje nunca aceitei a sugestão, mas o telefone mantém a convicção de que eu deveria despedir-me dizendo: “Um abraço do Ridículo.” Portanto, confirma-se: os smartphones conhecem-nos mesmo muito bem. Não é difícil. O facto de andar sempre comigo, dentro da algibeira, e de assistir às minhas pesquisas no Google, faz com que o telefone adquira uma ideia bastante precisa acerca de quem eu sou. Ridículo é um resumo muito perspicaz. Ainda assim, há alguns pormenores que o telefone desconhece – e que ajudariam a compor e reforçar este retrato. Permitam-me que vos revele um deles, para edificação de todos.

Quando, nas aulas de latim, foi preciso aprender a primeira declinação, o professor dispôs os casos pela ordem do costume (nominativo, vocativo, acusativo, genitivo, dativo, ablativo) e depois escreveu as terminações (singular: a, a, am, ae, ae, a; plural: ae, ae, as, arum, is, is). E então ocorreu-me que um bom modo de memorizar as desinências seria recitá-las ao som da música infantil A Machadinha. Foi o que fiz. A, a, am, era o início da cantiga. Ae, ae, a, correspondia ao verso “minha machadinha”. E por aí fora. Resultou. Entre a primeira declinação e a Machadinha não havia outra semelhança a não ser o facto de uma começar por “A, a, a” e outra por “a, a, am”. Ambas eram difíceis de compreender: eu estranhava igualmente que, por um lado, as palavras tivessem uma forma diferente consoante a função que desempenhavam na frase e, por outro, que alguém quisesse cantar sobre uma machadinha que, não se sabia bem como, saltava para o meio da rua. A voz feminina que cantava na Machadinha acabava a dizer que havia de ir à roda escolher o seu par, que era um rapazinho chamado José. O verso seguinte dizia: “Chamado José, chamado João.” Tratava-se, portanto, de um rapazinho que, como as palavras na língua latina, mudava de designação com facilidade. Resumindo, quando o professor me perguntava pela forma da palavra rosa no genitivo plural, eu cantava mentalmente a Machadinha até à parte “quem te pôs a mão sabendo” e respondia “rosarum”. O professor, desconhecendo o logro que decorria à sua frente, dizia “muito bem”. Mas eu não conseguia evitar corar um bocadinho. E foi assim que estudei latim. Um abraço para todos do

Ridículo

(Crónica publicada na VISÃO 1332, de 13 de setembro de 2018)