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Partes da vida que não entram nos filmes

E isto é uma obra complicada, sr. Blofeld. Só em escadarias e plataformas, temos aqui trabalho para meses. Se não fosse o lago das piranhas e a ponte que tem o alçapão para matar inimigos e castigar funcionários incompetentes, eu tinha-lhe isto pronto para o Natal

Ilustração: João Fazenda

– Isto agora só lá para Fevereiro, sr. Blofeld.

– Ó sr. Martins, o fim do prazo era Junho. Entretanto, já estamos em Agosto. Agora diz-me que é Fevereiro?

– Há sempre imprevistos. Uma pessoa também não controla tudo, não é? Se não me chegam os materiais eu não consigo avançar com a obra.

– Sim, mas daqui a pouco estamos com um ano de atraso.

– E isto é uma obra complicada, sr. Blofeld. Só em escadarias e plataformas, temos aqui trabalho para meses. Se não fosse o lago das piranhas e a ponte que tem o alçapão para matar inimigos e castigar funcionários incompetentes, eu tinha-lhe isto pronto para o Natal.

– Como, se falta tanto? A sala de controlo ainda agora foi acabada e já está cheia de humidade. Tenho os painéis de instrumentos cheios de verdete.

– Pois, mas isso é muito simples: ou quer secretismos e aguenta a humidade ou abre uma boa janela e fica com isto arejado. As duas coisas é que não pode ser. A sala de controlo é abafada? É, sim senhor. Mas eu disse-lhe que era melhor lançar os foguetões lá fora. Você é que teimou que não. 
Não ouvem os técnicos, e depois é isto. 
Este já é o terceiro covil subterrâneo que eu faço para a SPECTRE e nunca tive problemas.

– Entretanto, o cheiro a enxofre não desaparece.

– Ah, mas isso, meu amigo: isto é um vulcão. Por mais ventilação que ponha aqui, vai-lhe cheirar sempre a enxofre. Há uns ambientadores bons, agora, com cheiro a lavanda. Experimente.

– Pois, mas seja como for eu assim não consigo dominar o mundo. Tenho os astronautas raptados desde Maio e não posso lançar os foguetões para provocar um conflito mundial, porque as rampas 
de lançamento não estão prontas.

– O meu cunhado diz que os alumínios chegam para a semana. Assim que eu tiver os alumínios, começo-lhe a fazer as rampas para os foguetões.

– A qualquer momento pode-me chegar aí o 007 e eu tenho um covil inacabado, os painéis de controlo avariados e tresanda a enxofre. Dá muito mau aspecto.

– O pior nem é se chega o 007. Se lhe aparece a vistoria da câmara é que você está tramado. As telas que nós enviámos têm metade da área disto.

– Antes de eles aparecerem fecha-se metade 
do covil com uma parede de pladur.

– Então tenho de encomendar isso. 
Preciso de mais um cheque.

– Passe lá no meu escritório e eu dou-lho. 
Vá mesmo por cima da ponte.

– E vou mesmo. As piranhas só chegam no fim 
do mês.

(Crónica publicada na VISÃO 1327 de 9 de agosto)