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Terrorismo sério e responsável

Deve ser uma delícia andar de autocarro com a Humanidade, aguardar na fila do supermercado atrás da Humanidade, ir à bola na companhia da Humanidade

João Fazenda

Quando se soube que o Al Shabaab, um grupo terrorista ligado à al-Qaeda, tinha proibido os sacos de plástico por serem perigosos para a humanidade, muita gente riu: assassinam pessoas e preocupam-se com a humanidade? Ora, a pergunta não faz sentido. Primeiro, é bastante frequente que indivíduos muito bem-intencionados proponham soluções grotescas, restrições da liberdade, homicídios. É precisamente por serem tão bonzinhos que se acham no direito de proibir, prender e matar. Em segundo lugar, não há nenhuma contradição entre odiar pessoas e amar a humanidade. São entidades diferentes. Pelas minhas contas, temos: pessoas, gente, povo e humanidade. O pior são as pessoas, claro, e o melhor é a humanidade.

As pessoas não fazem pisca no trânsito; a humanidade foi à Lua. A humanidade é tão digna que, muitas vezes, aparece grafada com h grande: a Humanidade. Isso nunca aconteceu às pessoas, e bem. Não faz sentido escrever que as Pessoas deitam lixo no chão (coisa que a Humanidade, aliás, nunca faria). As pessoas raramente merecem a honra da maiúscula. Em geral, são referidas no fim da conversa, em tom de lamento: “realmente, as pessoas…”, e sempre com p pequeno.

A gente talvez esteja num patamar acima, mas não muito. Há gente muito estúpida. O que é normal, dado que a gente costuma ser formada por muitas pessoas. Mas, apesar de tudo, às vezes é possível confiar na gente, e integrá-la para fazer coisas giras. Por exemplo, determinada festa foi muito divertida, porque estava lá muita gente. Pena que duas ou três pessoas tenham estragado tudo. É sempre assim: as pessoas dão cabo da vida da gente.

O povo já é outra coisa. Dedica-se sobretudo à política, e com uma nobreza que falta claramente às pessoas. Os políticos, infelizmente, são, em geral, pessoas. O povo, que é sábio, vota neles, mas apenas porque não tem alternativa. Pudesse o povo votar no povo e as nações, verdadeiramente governadas pelos povos, prosperariam. No entanto, o povo não tem outro remédio senão votar em pessoas, com os resultados que todos conhecemos.

Não surpreende, por isso, que a Humanidade seja capaz de tantas e tão grandes façanhas: ela é formada pelo conjunto dos povos. Quando os povos se juntam para criar a Humanidade, aliam a excelência de cada um à dos outros, e o resultado é uma entidade que consegue atingir cumes da civilização, como as vacinas, a conquista do espaço e o gin tónico.

Falta descobrir o essencial: em que ponto passam as pessoas a ser gente – e, sobretudo, quando é que a gente se transforma em povo e Humanidade. Esse momento tem de ser identificado e estudado na escola. Deve ser uma delícia andar de autocarro com a Humanidade, aguardar na fila do supermercado atrás da Humanidade, ir à bola na companhia da Humanidade. Fazer tudo isso com pessoas é quase sempre chato, e muitas vezes perigoso.

(Crónica publicada na VISÃO 1323, de 12 de julho de 2018)