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Fernando Madonna

Uma estrela pop a sério teria comprado os paços do concelho e estacionado os carros no gabinete do Medina

Ilustração: João Fazenda

A minha posição relativamente aos lugares de estacionamento da Madonna é a seguinte: eu levo a mal ter de tomar posição relativamente aos lugares de estacionamento da Madonna. Tenho assistido, com grande sonolência, ao debate. Há chamadas de primeira página nos jornais, intervenções dos partidos, colunas de opinião, revelação de documentos – sobre lugares de estacionamento. Viaturas, e tal. Que ocupam determinada área de metragem quadrada. A problemática do estacionamento é capaz de ser o assunto de conversa mais pequeno e aborrecido da História das Conversas. Mesmo no âmbito do tema geral da circulação rodoviária, ele mesmo um pináculo de chatice, o estacionamento consegue guindar-se ao zingamocho da estopada.

A minha irritação tem dois grandes responsáveis: Medina e Madonna. É por causa deles que estamos há uma semana a discutir estacionamentos. Medina, que já tinha ido ao Ritz dar as boas-vindas a Madonna, está agora preocupado com o sítio onde ela parqueia. Todas as pequenas necessidades de Madonna, Medina supre. E supre pressuroso. 
Ao mesmo tempo que atravanca o trânsito dos 
outros 500 mil munícipes, resolve os problemas 
de circulação de uma.

Mas é em relação a Madonna que tenho o ressentimento mais fundo. Já houve um tempo em que discutíamos com gosto o encontro feliz da Madonna com o sistema rodoviário. Aquela foto de Steven Meisel, em que ela pede boleia na berma da estrada, toda nua só com saltos altos e uma malinha, proporcionou-me horas de gostosa reflexão. Mas esta questão do estacionamento é – não há outra forma de o descrever – pelintrice milionária. Madonna deve dar-se ao respeito. Como mãe de um jogador das camadas jovens do Benfica, tem uma imagem a proteger.

Pedinchar lugares de estacionamento à câmara municipal é uma conduta imprópria dos muito ricos. A parte boa de ter dinheiro é, precisamente, não precisar de pedir favores ao presidente da câmara. Comprar uma frota de 15 carros e depois precisar de ajuda para os estacionar é incongruente: ou bem que se é excêntrico, ou bem que se é mesquinho. A grande vantagem de ter Madonna a viver em Portugal 
é, ao que nos dizem, o prestígio associado ao facto de uma grande vedeta escolher o nosso país para morar. Mas então comporte-se como grande vedeta. Se tem 15 carros, contrate 15 motoristas que os mantenham a circular à volta do palácio, até ter necessidade de se meter num deles para ir ao pão. Coisas 
de grande vedeta. Uma estrela pop a sério teria 
comprado os paços do concelho e estacionado os carros no gabinete do Medina

(Crónica publicada na VISÃO 1232 de 11 de julho)