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“Noção do Ridículo”. Brevemente, na Netflix

Valeria a pena analisar a mistura especial de autoritarismo com puritanismo que faz com que alguém pense: “Isto dos olhares tem de ter regras”

João Fazenda

A Netflix, uma provedora global de filmes e séries de televisão via streaming (estou a copiar da Wikipédia porque não sei descrever com rigor a actividade da Netflix e a minha imaginação nunca seria provedora de uma palavra como provedora), definiu um conjunto de regras de conduta para os seus funcionários. As regras são bastante sensatas: não estabeleça contacto físico demorado e indesejado com os seus colegas, não continue a incomodá-los se já lhe disseram que não estão interessados em si, etc. A última regra, no entanto, é: não olhe para ninguém durante mais de cinco segundos. Como a notícia saiu nos tablóides ingleses, toda a gente teve o bom senso de desconfiar. Mas, instada a comentar, a Netflix não confirmou nem desmentiu, o que costuma constituir prova de veracidade. Além disso, responsáveis da empresa acrescentaram: a questão do assédio sexual não deve ser menorizada – o que está certíssimo. Infelizmente, a melhor maneira de menorizar uma causa é ter um histérico a defendê-la.

Exprimir, sobre determinado assunto, duas ou três ideias sensatas e depois acrescentar uma ideia absolutamente ridícula diminui a importância do assunto. Foi provavelmente por isso que, a seguir a “Não matarás” e “Não roubarás”, Moisés não acrescentou aos Dez Mandamentos a ordem “Não cantarás aquela da Céline Dion em karaokes porque toda a gente esganiça na parte em que ela diz que o seu coração vai continuar e é desagradável”. O profeta percebeu que misturar coisas estúpidas com coisas sensatas retirava peso à sensatez, e por isso era melhor não introduzir regras parvas na lista. Aquilo de não cobiçar a mulher do próximo já era esticar bastante a corda.

Valeria a pena analisar a mistura especial de autoritarismo com puritanismo que faz com que alguém pense: “Isto dos olhares tem de ter regras.” A acta da reunião em que um comité de sábios definiu que um olhar de cinco segundos é aceitável e um de seis é nocivo seria um primeiro e interessante documento de estudo. Uma descrição minuciosa da logística requerida para aplicar a nova regra mereceria edição em livro: qual o rácio recomendado de Fiscais do Olhar por cada funcionário? Há regras especiais para funcionários estrábicos? Uma coisa é fixar um colega durante seis segundos com o olho bom; outra coisa é fixá-lo com o olho maroto. Por uma vez, o olho bom é mais maroto do que o olho maroto, facto que deve ser contemplado na lei. Enfim, há um longo clausulado para redigir. Ao trabalho.