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Com todo o respeito, pondere a hipótese de, quiçá, considerar a possibilidade de, sendo a ideia do seu agrado, deixar de fumar

Ilustração: João Fazenda

Não fume. A menos que queira, claro. Se quiser, fume. Tem esse direito e ninguém deseja, de modo nenhum, restringir a sua liberdade. Portanto, pode fumar. Pode no sentido de ter essa possibilidade, não no sentido de lhe estarmos a dar permissão. Não precisa da nossa permissão para nada, como é óbvio. Só lhe sugerimos que deixe de fumar porque os cigarros fazem mal à saúde. Mas, pensando bem, é impossível que, em 2018, alguém não saiba ainda que fumar faz mal, pelo que talvez seja paternalista estar a chamar-lhe à atenção para um facto consabido. Pedimos desculpa. Vamos recomeçar.

Se conseguir, não fume. Quer dizer, é evidente que consegue, porque é forte e independente. Consegue tudo o que quiser. E era importante para nós que quisesse deixar de fumar, porque 
o fumo mata. Mas a culpa não é sua. É da nicotina, do benzeno, do amónio, do cianeto de hidrogénio 
e de outras substâncias presentes nos cigarros. 
Era o que faltava que a culpa de fumar fosse do fumador, só porque compra, acende e fuma os cigarros. Bom, talvez o fumador tenha um bocadinho de culpa. Mas é uma culpa muito moderada, quase inexistente. Pelo amor de Deus, não se deixe esmagar pelo peso da culpa. Por favor, não chore. É melhor tentar outra vez.

Gostaríamos que não fumasse. Mas não queremos com isto dizer que o facto de fumar nos desgosta. Não é isso. Respeitamos as suas opções, sejam 
elas quais forem, e não fazemos depender o nosso afecto por si do seu consumo de tabaco. Nós, aqui 
na Direcção-Geral de Saúde, amamos tanto 
a população fumadora como a não-fumadora. Não que houvesse alguma dúvida sobre isso. Queremos deixar claro que não há qualquer relação entre 
a capacidade de ser amado e o consumo de tabaco. Já estamos arrependidos de termos falado em amor. Dá sempre mau resultado, porque é um tema polémico. Voltemos ao início.

Com todo o respeito, pondere a hipótese de, quiçá, considerar a possibilidade de, sendo a ideia do seu agrado, deixar de fumar. Não é um pedido leviano, porque sabemos que o processo 
de abandonar o consumo de tabaco é extremamente complexo, doloroso e difícil. E, para falar com toda a honestidade, até tem inconvenientes. Por exemplo, ao que parece, quem deixa de fumar fica com tendência para engordar. Não que haja algum mal em ser gordo, atenção. Somos todos lindos. Especialmente os gordos. E os gordos fumadores mais ainda. Bolas. Estamos um bocadinho nervosos. Precisamos de um cigarro.

(Crónica publicada na VISÃO 1318 de 7 de junho)