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Cor de burro quando regulamenta

Em ambulâncias irrepreensivelmente amarelas, os doentes poderiam então chegar ao hospital e enfrentar as filas de espera, a escassez de pessoal e a falta de meios com a certeza de que tinham sido transportados num veículo cuja pintura estava absolutamente conforme à regulamentação legal

Ilustração: João Fazenda

Com muita pena minha, o Governo desbloqueou esta semana a situação das ambulâncias que estavam paradas por causa da cor. De acordo com os jornais, eram 70 veículos que, por terem a traseira vermelha, não estavam autorizados pelo Instituto de Mobilidade e Transportes (IMT) a circular. Agora o Governo interveio e os bombeiros já podem transportar doentes em viaturas que violam claramente a lei que regula as cores que as ambulâncias podem ter. Mas a que preço? Como se sentirão os doentes que são socorridos por ambulâncias que se encontram em grave transgressão cromática? Só o tempo poderá indicar os custos sociais deste desrespeito pelas normas do IMT. Imagino que um cidadão que seja salvo por uma ambulância cuja traseira não combina com o capô fique com a vida estragada. Não será preferível um falecimento digno a um salvamento foleiro? Faz falta um polícia da moda automóvel que ajude a responder a estas importantes questões.

O IMT tem o mérito de introduzir na discussão pública o negligenciado tema da relação entre a ortodoxia cromática e o auxílio a doentes e sinistrados. Se a farda do Super-Homem fosse à máquina 
e desbotasse, estaria ele em condições de ir impedir o descarrilamento de um comboio, com a capa toda roxa? Em princípio, não. “IMT multa Super-
-Homem por lixívia na capa”, diria a manchete do Daily Planet.

A intervenção do Governo, que veio dar respaldo legal a uma inadmissível balbúrdia nas cores dos veículos de socorro, desiludiu todos os que desejam maior rigor e exigência no sistema de saúde. E desiludiu também os leitores de Kafka. Se eu mandasse, haveria uma brigada de inspectores do IMT, cada um com um Pantone na mão, a perseguir ambulâncias para ver se estavam pintadas com a tonalidade certa de amarelo. Nem um tom acima, nem um tom abaixo. Levariam, eles próprios, um pincel e uma lata, para retocar pinturas despigmentadas. E depois, sim, em ambulâncias irrepreensivelmente amarelas, os doentes poderiam então chegar ao hospital e enfrentar as filas de espera, a escassez de pessoal e a falta de meios com a certeza de que tinham sido transportados num veículo cuja pintura estava absolutamente conforme à regulamentação legal. Isto não pode ser uma bandalheira.