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Última hora: nada aconteceu

Quando uma estação espacial é lançada no espaço, constitui um milagre da engenharia até sair da atmosfera terrestre. Nesse momento, passa a estar em lista de espera para se transformar em chuva de lixo

Ilustração: João Fazenda

A estação espacial chinesa – que, segundo chegou a ser noticiado, tinha 3% de probabilidades de cair em Portugal, entre o Porto e o Minho – acabou por se despenhar no oceano Pacífico, a noroeste do Taiti. Não aconteceu, portanto, o que era muito improvável que acontecesse. Caso tivesse acontecido, no entanto, em princípio não teria sido grave: a única pessoa que, até hoje, foi atingida por um pedaço de lixo espacial sobreviveu, depois de um pedacinho de lata lhe ter tocado suavemente no ombro. De acordo com os cientistas, a possibilidade de alguém ser atingido por detritos espaciais é dez milhões de vezes menor do que a de ser atingido por um relâmpago. Podemos, por isso, respirar de alívio: a baixíssima probabilidade de o zingarelho chinês cair no nosso país e a ainda mais ínfima hipótese de ferir alguém não se verificou. Receio, porém, que isso sirva de incentivo aos cientistas para continuarem a atirar ao ar jigajogas do tamanho de autocarros sem saberem onde elas vão cair. É certo que, ao entrar em contacto com a atmosfera terrestre, o autocarro começa a desfazer-se numa chuva de pequenas peças que até proporciona um espectáculo bonito, mas não sei se isso será desculpa suficiente para continuarmos a lançar bugigangas pesadas para o espaço. Creio que o problema reside no modo como os cientistas designam o seu trabalho. Uma coisa é pensar que se está a construir uma sofisticada estação espacial, outra coisa é ter a consciência de que se trabalha em futura sucata. Uma estação espacial, como o próprio nome indica, permanece no espaço; já o lugar da sucata, em princípio, é na Terra – e, além do mais, é plausível que ela deseje vir aninhar-se em Portugal. Só a noção clara de que estão a produzir ferro-velho pode incutir nos cientistas a preocupação de acautelar o seu regresso à Terra, e evitar que caia especificamente no nosso país. A própria designação de “engenheiro astrofísico” deveria ser substituída pela de “produtor de futuro lixo”. Quando uma estação espacial é lançada no espaço, constitui um milagre da engenharia até sair da atmosfera terrestre. Nesse momento, passa a estar em lista de espera para se transformar em chuva de lixo. Deixa de ser o produto de uma cabeça brilhante e passa a ser uma ameaça para a minha. Não é novidade: os meus professores do liceu sabem perfeitamente que a ciência sempre foi uma ameaça séria para a minha cabeça.

(Crónica publicada na VISÃO 1309 de 5 de abril)