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25 anos no bolso

Após uma análise cuidadosa, chegamos à conclusão de que, nos últimos 25 anos, a humanidade dedicou-se energicamente a meter o maior número possível de coisas no bolso

Ao longo da História, o ser humano tem exprimido vários sonhos nobres – e concretizado alguns: curar todas as doenças, voar, erradicar a pobreza, ir à Lua. No entanto, após uma análise cuidadosa, chegamos à conclusão de que, nos últimos 25 anos, a humanidade dedicou-se energicamente a um projecto um pouco mais prosaico: meter o maior número possível de coisas no bolso. É uma revolução menos romântica, até porque ocorre nas calças, e o seu Largo do Carmo é a algibeira. Se as pessoas que fundaram a VISÃO, em 1993, se cruzassem na rua com um cidadão que levasse uma televisão, um computador, uma máquina fotográfica, uma câmara de filmar, um telefone, uma consola de jogos, um rádio, um gira-discos, um gravador, um relógio, uma bússola e um despertador no bolso, talvez hesitassem entre fazer uma reportagem sobre esse excêntrico ou propor o seu internamento. Um quarto de século depois, é rara a pessoa que não tem todos esses objectos (e também a própria revista VISÃO) no bolso – e excêntricos são os que não os têm.

É curioso que o chamado smartphone, sendo embora o objecto central do nosso tempo, tenha uma designação tão deficiente. Não nego que seja muito smart (deus me livre de melindrar o aparelho de alguém); o que digo é que é pouco phone. 
O smartphone é uma colecção de dezenas de objectos, e o telefone é apenas um entre muitos – e nem sequer é dos mais importantes. Estudos revelam que o utilizador médio toca no seu smartphone 2 617 vezes por dia, e só uma pequena parte delas tem como objectivo fazer um telefonema. O smartphone é muito mais um computador e uma máquina fotográfica que faz telefonemas do que um telefone que acede à internet e tira fotografias. O telefone clássico permitia-nos conversar com os nossos amigos quando eles estavam longe; o telefone moderno permite-nos acabar as conversas com eles quando estamos juntos. Não me refiro apenas ao fenómeno das pessoas que estão juntas mas cada uma a espreitar o seu aparelho. Estou a falar do modo como o smartphone acabou com as teimas. A declaração “O Nené marcou 37 golos na época de 1981/82” podia ser mote para uma teima de uma hora entre dois amigos, em 1993. Agora, resolve-se em 30 segundos (marcou mesmo, acabei de ver no meu smartphone). Depois, os amigos ficam 
59 minutos e meio sem nada para dizer. 
É difícil imaginar o que iremos meter no bolso nos próximos 25 anos. Talvez uma lista de temas de conversa. Ou um fecho, para impedir o telefone de sair do bolso.