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Este homem tem um currículo fantástico

Barreiras Duarte foi secretário de Estado adjunto de Miguel Relvas, o que significa que um visiting scholar que não era visiting scholar fez trabalho político sob a alçada de um licenciado que não era licenciado

Ilustração: João Fazenda

Ontem, numa altura em que eu não estava a preparar a minha conferência Charles Eliot Norton, ninguém me telefonou do MIT. Ainda bem. Não estou para os aturar. Precisamente por querer estar sossegado, nunca revelei o número de telefone do meu gabinete na Universidade de Oxford, que aliás não existe. Este pequeno incidente fez-me lembrar o caso de Feliciano Barreiras Duarte, secretário-geral do PSD, que durante anos se identificou como “visiting scholar” na Universidade de Berkeley, quando a designação correcta era “imaginary scholar”. Barreiras Duarte foi secretário de Estado adjunto de Miguel Relvas, o que significa que um visiting scholar que não era visiting scholar fez trabalho político sob a alçada de um licenciado que não era licenciado. Parece apropriado, mas na verdade não faz sentido: as habilitações inexistentes de Barreiras Duarte são muito mais impressionantes do que o diploma imaginário de Miguel Relvas, pelo que o segundo deveria ter trabalhado sob a orientação do primeiro, e não o contrário. Uma licenciatura na Lusófona é claramente menos importante do que o estatuto de professor convidado em Berkeley, mesmo que ambos pertençam ao domínio da fantasia. A menos que Relvas tenha ido buscar o diploma a cavalo de um unicórnio, e o tenha recebido das mãos do professor Elvis Presley, o seu currículo inventado era inferior ao currículo inventado de Barreiras Duarte. Se a hierarquia dos cargos não reflectir a qualidade do percurso académico que cada um inventa, receio que as pessoas percam motivação para forjar habilitações cada vez melhores. Além disso, tendo em conta a acumulação de casos, parece-me que já faz falta um Ministério da Educação Falsa, para regular os graus académicos fantasiosos e, sobretudo, cobrar propinas verdadeiras aos titulares de habilitações falsas.

Ao que dizem os jornais, Barreiras Duarte não era visiting scholar porque nunca visitou a universidade de Berkeley. Acaba por ser refrescante: todos conhecemos visitas chatas que nunca mais 
se vão embora; Barreiras Duarte é uma visita que nem sequer aparece. Por outro lado, é curioso: 
numa altura em que se contesta que Passos Coelho vá ser professor numa universidade, também se critica que Barreiras Duarte nunca tenha sido professor noutra. Não está fácil, a carreira académica de figuras do PSD.

(Crónica publicada na VISÃO 1306 de 15 de março)