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Jantar na sala de espera do veterinário

Quem já esteve na sala de espera de um veterinário sabe que há dois tipos de donos de cães: os que falam com as outras pessoas sobre o seu cão e os que falam com o seu cão sobre as outras pessoas

Ilustração: João Fazenda

Mesmo agradecendo a lembrança dos legisladores, não usufruirei da nova lei que permite a entrada de animais de companhia em restaurantes. Os meus quatro cães – a Flor, a Ginja, o Demónio e a Dona Custódia – continuarão a ficar em casa quando eu for jantar fora. Há quem seja contra a entrada de cães em restaurantes. Eu sou contra a entrada de algumas pessoas. Sobre os cães, ainda não decidi. Mas não levarei os meus porque são bichos que, como se costuma dizer, não sabem estar. Talvez os cães da rainha de Inglaterra saibam comportar-se em casas de restauração. Desconfio que os meus não sabem. São dados a alegrias parvas e a ternuras brutas. As alegrias parvas fazem com que eles abanem a cauda com o vigor que alguns chicotes não têm. As ternuras brutas impelem-nos a pôr as patorras no peito de desconhecidos com o objectivo de lhes lamberem a cara. Bem sei que, ao contrário de mim, que continuo a deslocar-me a restaurantes com a desactualizada ambição de comer, os clientes procuram hoje, mais do que uma refeição, “experiências gastronómicas”. Mas duvido que possam estar interessados na experiência de ter as beiças húmidas de um boxer a abocanhar-lhes docemente o nariz.

As críticas que tenho lido à nova lei tendem a concentrar-se nos animais e a esquecer o problema principal, que são os donos. Quem já esteve na sala de espera de um veterinário sabe que há dois tipos de donos de cães: os que falam com as outras pessoas sobre o seu cão e os que falam com o seu cão sobre as outras pessoas. Os primeiros aguardam que um dos outros donos seja suficientemente incauto para estabelecer contacto visual e costumam abrir a conversa com um resumo do historial clínico do cão. “Este maroto já me fez cá vir três vezes esta semana. Coitadinho. Mas faz muita companhia. Ontem, chego a casa e ele…” E por aí fora. Os segundos optam por este modelo: “Ó Bolinhas, aquele senhor tem uma cadelinha que era uma namorada mesmo boa para ti.” Quem quiser responder ao dono do Bolinhas tem de se meter na conversa e dirigir-se a ele por interposto cão: “Não pode ser, Bolinhas, que a Princesa está esterilizada. Não é Princesa?” Ambos os donos conseguem manter este diálogo até que um deles seja chamado para entrar no consultório, altura em que dirá: “Adeus, Bolinhas. As melhoras.” Suponho que, nos restaurantes, os donos de cães se relacionem do mesmo modo. É essa questão que a lei não contempla. Espero que o Presidente da República ou o Tribunal Constitucional acrescentem essa adenda: os cães podem frequentar os restaurantes, mas os donos estão impedidos de aborrecer os outros clientes com histórias giras sobre aquela vez em que o Lorde se assustou com uma trovoada e só tremia debaixo da cama. Não foi, Lorde? Coitadinho.

(Crónica publicada na VISÃO 1304 de 1 de março)