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Sherlock Holmes e o caso do camarote presidencial

Se o futebol português é um crime, assistir é cumplicidade. Mário Centeno precisa de um bom advogado.

Ilustração: João Fazenda

Vamos começar pelos factos (para os leitores mais jovens, esclareço que “factos” eram uma coisa que os jornais publicavam antigamente, antes do advento das chamadas fake news): Mário Centeno pediu dois bilhetes para ir ver o Benfica-Porto com o seu filho no camarote presidencial do Estádio da Luz; os filhos de Luís Filipe Vieira obtiveram isenção de IMI para um imóvel que recuperaram no Chiado; as autoridades fizeram buscas no gabinete do Ministério das Finanças para averiguar se há relação entre uma coisa e outra. Sucede que a decisão de isentar imóveis de IMI cabe à autarquia, e não ao ministro; e o imóvel em causa qualificava-se legalmente para beneficiar dessa isenção. Pode ser que um destes factos não seja um facto, dado que os recolhi na cada vez mais falível comunicação social. Mas, havendo aqui factualidade, é difícil reconhecer a justiça portuguesa. Estamos perante um caso em que se desconfia que, em troca de dois bilhetes para ir à bola, um ministro concedeu um benefício que não tem poder para conceder a cidadãos que não precisam de favores para o obter. As autoridades judiciais não costumam ser tão zelosas. Ainda não foi assim há tanto tempo que houve para aí umas confusões envolvendo uns submarinos e um centro comercial em Alcochete sem que qualquer gabinete tivesse sido revistado.

Em Portugal, como sabe até quem não tem formação jurídica, há cortesia, jeitinho, favor e corrupção. Destes, só a corrupção é ilegal – e, felizmente, quase nunca ocorre no nosso país. A oferta de bilhetes a Mário Centeno parece ser um pouco mais que uma cortesia. Mas, em princípio, não passou de um jeitinho. Não foi uma cortesia, na medida em que a cortesia costuma ser voluntária. Aqui foi requisitada por Centeno, o que a transforma num jeitinho. Creio que seria um exagero qualificá-la como favor. Mas Mário Centeno está a ser investigado por um crime. Resta-nos, por isso, uma hipótese: ver futebol pode configurar a prática de um crime – o que não é surpreendente. Diz-se que, em Portugal, há criminosos entre os dirigentes, os jogadores e os árbitros. Era uma questão de tempo até os espectadores também estarem sob suspeita. Se o futebol português é um crime, assistir é cumplicidade. Mário Centeno precisa de um bom advogado.

(Crónica publicada na VISÃO 1300 de 1 de fevereiro)