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Feliz 2018 (se existir)

Antever o ano que se aproxima costuma ser um exercício completamente inútil – daí que ocupe tantas páginas de jornal

Ilustração: João Fazenda

Antever o ano que se aproxima costuma ser um exercício completamente inútil – daí que ocupe tantas páginas de jornal. São antevisões que, periodicamente, antevêem o futuro, nunca antevendo o que realmente deveria ser antevisto. Ninguém anteviu a queda do BES, a prisão de José Sócrates ou as vitórias de Portugal no Europeu e na Eurovisão. Bruxos de todos os feitios dedicam-se a fazer previsões que nunca se concretizam e a falhar a previsão do que realmente acontece.


A realidade costuma ser imprevisível – ao contrário, curiosamente, das previsões. É possível prever, por exemplo, que alguém vai prever o fim do mundo. Uma rápida pesquisa no Google confirma-o: já estão agendados dois fins do mundo para 2018. Um grupo de gente relativamente perturbada alega que o mundo terminará a 20 de Maio e outro grupo com as mesmas características psíquicas garante que o fim do mundo ocorrerá a 24 de Junho. Ambos os grupos sustentam a previsão em versos bíblicos que não permitem, de modo nenhum, retirar essas conclusões. Ainda assim, a Bíblia é um dos instrumentos favoritos daqueles que se entretêm a fazer previsões, juntamente com, por exemplo, polvos – o que não surpreende uma vez que a Bíblia e os polvos têm exactamente a mesma taxa de sucesso no que toca a prever o futuro.

Há, no entanto, previsões que dispensam a leitura da Bíblia, a contemplação de polvos ou o exame das vísceras de galinhas. Por exemplo, é difícil errar na previsão de que, em Portugal, há coisas que não vão correr bem em 2018. Haverá sem dúvida nenhuma um escândalo. Responsáveis políticos vão estar envolvidos. Responsáveis políticos do partido a que pertencem os envolvidos vão lembrar que responsáveis políticos de outros partidos já estiveram metidos em escândalos iguais ou piores. As redes sociais vão incendiar-se. Nisto, acontecerá uma catástrofe. Haverá solidariedade para com as vítimas da catástrofe. Em princípio, haverá um escândalo relacionado com a origem ou a prevenção da catástrofe. Responsáveis políticos do partido a que são assacadas as responsabilidades da catástrofe vão lembrar que responsáveis políticos de outros partidos já foram responsáveis por catástrofes iguais ou piores.


As redes sociais vão incendiar-se. Entretanto, Portugal terá uma pequena vitória internacional. As catástrofes e os escândalos serão esquecidos, porque nós, apesar de tudo, realmente somos um povo que sim senhor. E depois chegará a altura de fazer as previsões para 2019

(Crónica publicada na VISÃO 1295 de 19 de dezembro)