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Balanço dos balanços do ano

Faz sentido juntar ao balanço do que se passou o balanço do que não se passou

Ilustração: João Fazenda

Fazendo um balanço do que têm sido os balanços do ano, neste final de 2017, creio que há razões para satisfação. Tem havido bons balanços, cumprindo as duas grandes tradições do formato: os balanços que resumem o ano mês a mês e os balanços que resumem o ano por ordem alfabética de tema. Registo, no entanto, uma falha grave: nenhum dos balanços publicados até agora se dedicou às chamadas fake news – que hoje têm uma importância igual ou até maior que as notícias verdadeiras. Faz sentido, por isso, juntar ao balanço do que se passou o balanço do que não se passou.

No que diz respeito a mortes que não ocorreram, este foi um ano preenchido. Adam Sandler morreu falsamente logo em Janeiro. A falsa morte de George H. Bush foi anunciada em Fevereiro (portanto, nove meses antes de ser acusado de assédio sexual), e depois houve várias falsas mortes a lamentar (ou a não lamentar. Ou a lamentar que se lamente o que não se deveria estar a lamentar. Enfim, é complicado): Rowan Atkinson não morreu em Março; Denzel Washington e Eddie Murphy não morreram em Abril; Clint Eastwood, Bill O’Reilly e Miley Cyrus não morreram em Maio (Maio foi um bom mês para não morrer); Imelda Marcos e Monica Lewinsky não morreram em Junho (Imelda teve uma falsa paragem cardíaca e Monica foi vítima de falso homicídio) e Kid Rock não morreu em Julho. Depois passaram dois meses sem falsas mortes, até que Morgan Freeman morre falsamente em Outubro. Já em Dezembro, a escassos dias de completar 101 anos, não morreu Kirk Douglas. Entretanto, a morte de Bob Denver, actor de Gilligan’s Island, foi anunciada em Janeiro, mas dessa vez tratava-se de outro tipo de falsa morte, uma vez que Denver já tinha morrido em Setembro de 2005. Tratou-se, neste caso, de uma falsa notícia de uma verdadeira morte, para desenjoar das falsas notícias de falsas mortes.

Um dos temas sempre em destaque nos falsos noticiários é a homossexualidade. Em Fevereiro, foi erradamente noticiado que o evangelista Pat Robertson tinha dito que “olhar fixamente para Melania Trump curava gays”, e em Agosto teve várias partilhas a notícia de que o Dr. Dimitri Yusrokov Slamini, de Novosibirsk, tinha descoberto uma vacina que curava a homossexualidade. Toda a notícia era falsa, com excepção da referência à cidade de Novosibirsk, que existe mesmo – o que, aliás, se lamenta.
Não custava nada ter inventado uma cidade russa.
É lamentável, a falta de brio profissional na classe dos falsos jornalistas.

No âmbito dos testículos, Junho e Julho foram meses especialmente ricos em falsas notícias. Primeiro, chegou-nos o falso relato de uma gaivota que arrancou o testículo a um banhista numa praia de nudistas, e logo a seguir a notícia falsa de um vencedor da lotaria de Atlanta que morreu na sequência de ter banhado a ouro o escroto. Mais uma vez, a cidade de Atlanta existe na realidade. Mau trabalho.

Este balanço do ano, inevitavelmente incompleto, deixa de fora várias notícias falsas de 2017. Gostaria de salientar, no entanto, que nenhuma foi inventada por mim – ou seja, são verdadeiras notícias falsas. Seria pouco ético que eu fizesse referência a falsas notícias falsas num ano tão recheado de notícias falsas verdadeiras. Entretanto, dói-me a cabeça.