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Profecias do diabo

E então bateram à porta e Pedro foi abrir. Era o Diabo. E o Mafarrico disse: “Chamaste?”

Ilustração: João Fazenda

E então o profeta Pedro disse: “E antes de passarem sete dias e sete noites virá o Diabo, sob a forma de uma conjuntura económica extremamente adversa, motivada por diversos factores, designadamente um sobreendividamento resultante da devolução das reformas e dos salários. E nessa altura haverá pranto e ranger de dentes, e a danação será completa.” Mas, naquele tempo, alguns habitantes da Judeia liam a imprensa económica. E, nem que fosse por desfastio, gostavam de confrontar Pedro com os chamados indicadores. Um dia, alguém lhe disse: “Ó Pedro, mas olha que o PIB está a subir.” E Pedro disse: “E não é de admirar, porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz. E o Senhor castigará todos os que acreditarem em subidas de índices, pois terão preferido acreditar no que os seus olhos vêem, em lugar de crerem na palavra do Senhor.” E alguém disse: “Qual Senhor, Pedro?” E Pedro redarguiu: “O Senhor Schäuble. Ele também já anunciou a vinda do Diabo.”

E passaram alguns meses. E então, um trabalhador a quem tinha sido devolvido o 13º mês disse: “Ó Pedro, já passaram sete dias e sete noites e não veio diabo nenhum, pá.” E Pedro disse: “Em verdade vos digo que o Diabo virá, e o seu rosto será o desemprego.” E o trabalhador disse: “Olha que não, porque o desemprego caiu para valores abaixo de 9%, que aliás é o melhor resultado dos últimos nove anos.” E Pedro disse: “Mas Satanás virá, e o seu nome será falta de investimento estrangeiro, por causa do receio que os mercados nutrem dos comunistas.” E o trabalhador respondeu: “É pouco provável, porque a Standard and Poor’s acaba de retirar Portugal do lixo”.

E Pedro disse: “Mas o Demónio virá, até porque já se suicidou uma pessoa em Pedrógão.” E o trabalhador retorquiu: “Não suicidou, não. Ó Pedro, tu tens tanto jeito para profecias como para formar empregados aeroportuários.” E Pedro resmungou qualquer coisa e, como estava entretido com as profecias, acabou por escolher os candidatos autárquicos um bocadinho à balda. E então realizaram-se eleições, e o povo depositou os votos nas urnas, conjugando milagrosamente os deveres cívicos com a vontade de ir à bola. E por volta das 20h00, altura em que encerraram as assembleias de voto nas ilhas, as televisões anunciaram as primeiras projecções e o PSD tinha cerca de metade dos votos do CDS em Lisboa. E então bateram à porta e Pedro foi abrir. Era o Diabo. E o Mafarrico disse: “Chamaste?”

Crónica publicada na VISÃO 1283 de 5 de outubro