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Teólogos laicos igualmente puritanos já tinham acusado Chico Buarque de machismo e Ney Matogrosso de homofobia. Era uma questão de tempo até que teólogos religiosos acusassem o Papa de heresia

Ilustração: Luís Fazenda

Um grupo de teólogos conservadores acusou o Papa Francisco de heresia. Era previsível. O Papa tem dito coisas que fazem certos crentes benzerem-se – o que constitui uma operação teológica bastante paradoxal, em que o Papa simultaneamente estimula o comportamento moral e imoral. Mas também era previsível porque o ambiente geral é de identificação e condenação de heresias. Teólogos laicos igualmente puritanos já tinham acusado Chico Buarque de machismo e Ney Matogrosso de homofobia. Era uma questão de tempo até que teólogos religiosos acusassem o Papa de heresia.

Do ponto de vista teológico, a atitude destes últimos é mais arriscada: os teólogos laicos que acusaram Chico Buarque de machismo e Ney Matogrosso de homofobia limitaram-se a ir contra as evidências – e este tipo de teólogo nunca permitiu que as evidências modificassem a sua acção. Mas os teólogos que acusam Francisco de heresia estão em choque com um dogma. E o dogma tem, sobre as evidências, a grande vantagem de não precisar de ser evidente para se impor. Sucede que a infalibilidade papal é um dogma. Quando o Santo Padre faz deliberações em assuntos de moral e fé (que são as matérias que os teólogos contestam), nunca erra. 
A razão para isso é difícil de contestar: quando trata desses temas, o Papa é assessorado pelo Espírito Santo. Os teólogos que o acusam de heresia estão, por isso, a acusar de herege o Espírito Santo. É frequente depararmos com situações em que alguém é mais papista do que o Papa. Mas julgo que é a primeira vez que alguém é mais espiritosantista que o Espírito Santo.

Entre outras coisas, o Papa manifestou abertura para saber se os católicos divorciados que voltam a casar poderiam, contrariamente ao que se permite agora, voltar a comungar. Ter-se-á passado o seguinte: o Espírito Santo, tomando em consideração as mudanças sociais ocorridas nos últimos dois mil anos, terá segredado ao Papa que talvez não fizesse sentido manter proibições um bocadinho retrógradas. O Papa, tomando boa nota da sugestão do seu assistente, e provavelmente concordando com ela, resolveu levantar a questão. Foi então que vários teólogos, mentalmente menos jovens do que o Espírito Santo, se opuseram à medida. O Espírito Santo, segundo eles, não percebe nada das coisas sagradas. Como ateu, não saberia pronunciar-me. Mas talvez possam ter razão. Que o Papa seja dado a heresias é estranho, mas possível. Pelo menos mais provável do que a homofobia do Ney Matogrosso.

Crónica publicada na VISÃO 1282 de 28 de setembro