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O homem novo do MPLA envelheceu mal

No regresso às crónicas na VISÃO após as férias, Ricardo Araújo Pereira escreve sobre as eleições em Angola. A não perder!

João Fazenda

No momento em que escrevo não se sabe ainda que partido venceu as eleições angolanas – e o suspense está a consumir-me. Será que o MPLA vai ganhar? 


E por quanto? 70%? 80%? 110% Todos os cenários estão em aberto. Quando este texto for publicado, o leitor já conhece os resultados, mas eu vou acompanhar pela noite dentro este renhido sufrágio, prestando especial atenção às sondagens à boca das urnas, para tentar antecipar o imprevisível vencedor. Quem não teve oportunidade de acompanhar a campanha eleitoral poderá recorrer ao relato imparcial do editorial do Jornal de Angola sobre todos os partidos concorrentes. De acordo com a avaliação do maior jornal do país, a UNITA vive de “esquemas ideológicos ultrapassados e de preconceitos do passado”, e está “totalmente desfasada da realidade”. A coligação CASA-CE tem “defeitos de nascença” e cai em “vícios políticos”. Quanto às outras formações, “praticamente não fizeram campanha”, sobretudo porque “vêm repetindo o mesmo de há 25 anos”. Finalmente, o MPLA apresenta um “pensamento diferenciador” e um “projecto altamente global e abrangente”. É, portanto, uma decisão difícil, e suponho que ninguém gostaria de estar na pele dos eleitores angolanos. Que fazer? Optar pela indigência política, o irrealismo, o defeito e o vício da oposição ou pela excelência do MPLA? É uma verdadeira escolha de Sofia. Nos últimos 38 anos, o povo angolano escolheu sempre o MPLA, e é provavelmente por isso que hoje tem uma sociedade livre de indigência, irrealismo, defeito e vício. Outra escolha talvez tivesse feito de Angola um país vergado à pobreza, à corrupção e ao abuso de poder.

Segundo os principais analistas, a única certeza que temos quanto ao resultado destas eleições é esta: José Eduardo dos Santos não vai ganhar. Sinceramente, não estou assim tão seguro. Creio que, em Angola, do facto de José Eduardo dos Santos não se candidatar a eleições não decorre necessariamente que ele não consiga ganhá-las. Basta que meia dúzia de delegados nas mesas de voto não tenham recebido a circular correcta. Se, no entanto, se verificar a substituição do actual presidente por outra figura do MPLA, vai ser interessante acompanhar as mudanças que essa transformação implicará: ao fim de quanto tempo estarão bilionários os filhos do novo presidente? Que meios de comunicação social portugueses irão eles e os seus amigos adquirir? Qual a lista de livros cuja leitura vão decretar proibida e punida com pena de prisão? Enfim, será sem dúvida nenhuma uma lufada de ar podre.

(Crónica publicada na VISÃO 1277, de 24 de agosto de 2017)