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O homem das casernas

Só Pedro Passos Coelho pode salvar o governo. O país precisa que o líder da oposição dê uma demonstração de patriotismo e afirme, perante os microfones, que, de acordo com o que ouviu dizer a uma pessoa de família, o material de guerra roubado já foi usado para cometer um suicídio

João Fazenda

Julgo não estar longe da verdade se disser que o adjectivo “fandanga” é usado exclusivamente para qualificar determinada tropa. Nunca, ao longo de toda a minha vida de falante de português, registei outra utilização do termo. Parece-me improvável que não haja, neste vasto mundo, mais coisas fandangas, mas o certo é que o povo não as designa com esse apodo. Talvez suceda que, quando os fandangos decorrem na tropa, se evidenciem mais. Que haja situações fandangas civis não sobressalta tanto como a existência de fandangos na tropa, como é óbvio. Considerando o rigor e a exigência militares, as ocorrências fandangas castrenses acabam por sobressair. Todos conhecemos o esmero e a firmeza com que um militar é obrigado a desmontar a arma, limpar a arma, apresentar a arma, cruzar a arma, descansar a arma. Seria de esperar que mantivesse o mesmo zelo a guardar a arma. Uma vez que contamos com a tropa para nos defender, o assalto ao paiol de Tancos parece indicar a necessidade de uma tropa que defenda a tropa. E, talvez, de uma tropa que defenda a tropa que defenda a tropa.

Eu fui, aliás com justiça, dado como inapto para o serviço militar. O ministro da Defesa, infelizmente, não parece muito mais apto – e no entanto pode comandar as forças armadas. O desleixo na protecção do paiol sugere que as forças armadas estavam, na verdade, armadas em boas. E o roubo repercute-se na própria designação: “forças armadas” talvez seja, neste momento, ao menos até certo ponto, um exagero, na medida em que as forças acabam de ser desarmadas. É possível que o chefe supremo das forças armadas, o Presidente da República, tenha amolecido a tropa com a estratégia do afecto. Os militares vêem gatunos a encher um camião de munições e optam pela via do diálogo e da compreensão. Nada contra o afecto, mas de vez em quando deve ser temperado com uma ou outra manifestação de bruteza.

Neste momento, creio que só Pedro Passos Coelho pode salvar o governo. O país precisa que o líder da oposição dê uma demonstração de patriotismo que faça jus ao brioso pin que ostenta na lapela e afirme, perante os microfones, que, de acordo com o que ouviu dizer a uma pessoa de família, o material de guerra roubado já foi usado para cometer um suicídio. O ministro Azeredo Lopes está à espera, ansioso.

(Crónica publicada na VISÃO 1270 de 6 de julho)