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Rocky e Ivan Drago vão ao cinema

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A frase “Cuidado, vêm aí os russos!” está agora mais completa: “Cuidado, vêm aí os russos. Teremos champanhe que chegue?”

João Fazenda

Críticos de cinema de todo o mundo devem estar, neste momento, a rasurar críticas antigas. O mundo mudou e essa mudança produziu, primeiro que tudo, uma transformação sem precedentes no cinema. Numerosas películas mudaram de género sem que fosse necessário alterar um fotograma. Os filmes de espionagem americanos de antigamente são agora obras de ficção científica. Na história clássica dos filmes de espionagem, um agente do FBI ia investigar os russos. Na vida real, o Presidente dos Estados Unidos da América despede um agente do FBI por andar a investigar os russos. As novas relações entre os americanos e a Rússia exercem um estranho efeito retroactivo sobre a mitologia do passado. É como se Montéquios e Capuletos, de repente, fossem os melhores amigos: a história de Romeu e Julieta fica meio parva. Parece o inverso de um casamento seguido de divórcio. EUA e Rússia são um casal divorciado que se casa. Talvez haja necessidade de recorrer ao método estalinista de alterar fotografias, mas ao contrário: em vez de retirar elementos caídos em desgraça das fotos antigas, incluir elementos caídos em graça nas fotos antigas.

A frase “Cuidado, vêm aí os russos!” está agora mais completa: “Cuidado, vêm aí os russos. Teremos champanhe que chegue?” Exprime outro tipo de preocupação. A diferença é bastante significativa, pelo que talvez valesse a pena submeter os filmes clássicos ao processo a que a indústria de Hollywood chama um remake. Um remake costuma ser o equivalente cinematográfico dos restos do jantar de ontem: vão ao microondas e comemos outra vez a mesma coisa ao almoço. No caso dos filmes é ligeiramente diferente, uma vez que o jantar não é de ontem, é de há algumas décadas. Os remakes que tenho em mente seriam ainda mais singulares, porque teriam de conformar o enredo antigo à realidade moderna. Comecei a trabalhar no remake do filme Rocky IV. Nesta versão, Rocky e Ivan Drago não lutam, uma vez que são amigos. Drago matou Apolo Creed, mas apenas porque suspeitou que ele pudesse ser muçulmano. Rocky perdoou imediatamente o russo e ainda deram umas boas gargalhadas sobre isso. Para manter a tensão do filme original quanto à rivalidade entre o russo e o americano, Drago e Rocky fazem uma competição para ver quem come mais bombons de ginja durante um piquenique. Fico à espera da chamada dos estúdios da MGM. Tenho isto quase pronto.

(Crónica publicada na VISÃO 1264, de 25 de maio de 2017)