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Toxicodependência bancária

Como já desconfiávamos, nesta história, o Estado português é, obviamente, o Tonto

João Fazenda

Será que, através da oferta de novas obrigações, o Novo Banco vai conseguir gerar fundos próprios elegíveis para o cômputo do rácio CET1? É uma pergunta à qual não sei responder, até porque não a percebo. Não faço ideia do que possa ser o CET1, sigla que, além do mais, tem uma sonoridade que desperta em mim memórias muito desagradáveis. 
E ninguém me tira da ideia que “cômputo do rácio” é uma expressão insultuosa. “Vai para o cômputo do rácio” parece-me um mote infalível para uma cena de pancadaria. Felizmente, o caso do antigo BES também tem sido descrito com outro tipo de linguagem, mais acessível a leigos como eu.

Primeiro, havia um banco bom e um banco mau. Até aqui, tudo bem. O enredo das telenovelas preparou-nos para entender este tipo de história: há dois bancos irmãos, mas um é bom e o outro é mau. Pode acontecer em qualquer família. Sucede que a vida financeira é mais complicada do que as telenovelas, e de repente descobriu-se que o banco bom tinha, dentro de si, um banco mau. Também se compreendia: o banco bom, provavelmente, tinha engravidado, e gerado uma instituição de crédito que saía ao tio. O drama que afectava estes bancos era igualmente familiar: os activos tóxicos. O Estado – que, ao que parece, é pai dos bancos 
– financiara-lhes a toxicodependência, e eles, como sempre acontece, gastaram tudo no vício.

Nisto, entrou na história uma outra personagem, chamada Lone Star. Por ser americana, e por ter tido neste processo uma certa postura de caubói, a Lone Star faz lembrar o Lone Ranger, aquele cavaleiro mascarado dos filmes, sempre coadjuvado por um índio chamado Tonto. Tal como sucede com o Lone Ranger, a identidade da Lone Star também é mais ou menos misteriosa. Sabemos apenas que vai tomar conta do banco, sendo coadjuvada pelo Estado – que, não tendo direito de voto, será obrigado a pagar todas as recaídas do filho, todas as novas incursões na toxicodependência, e ainda saldar dívidas antigas a traficantes do passado. O que significa que, como já desconfiávamos, nesta história, o Estado português é, obviamente, o Tonto.

(Crónica publicada na VISÃO1257, de 6 de abril de 2017)