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O regresso ao Momento Mastóideu

O mais provável é que os americanos queiram saber mais sobre a geringonça porque, nesta altura, estarão especialmente interessados numa solução em que o chefe do governo é o segundo mais votado nas eleições. Não admira.

João Fazenda

O Momento Mastóideo (marca registada), 
que defini neste mesmo espaço em colunas anteriores, antecipando-
-me ao professor Eduardo Lourenço, continua a fazer aparições periódicas na imprensa portuguesa, e eu gostaria de continuar a registar essas ocorrências. Para os leigos que não conhecem ainda o conceito, recordo o episódio que inspira este instrumento indispensável para compreender a alma portuguesa e o próprio universo em geral. Quando, n’A Canção de Lisboa, Vasco Santana passa com distinção no exame de medicina, uma das suas tias exclama, com orgulho: “Rico filho! Ele até sabe o que é o mastóideo!” O mastóideo é, por isso, um tipo de erudição especial. Nem toda a erudição seduz tias. As tias podem aborrecer-se com o latim, desprezar o conhecimento dos clássicos, mas o mastóideo – o mastóideo é um poderoso deslumbra-tias. A imprensa portuguesa é uma tia fácil de encantar, e qualquer mastóideo a deixa maravilhada. Esta semana, vários jornais noticiaram o seguinte mastóideo: a geringonça vai ser estudada em Harvard. A notícia injectou um suplemento de orgulho lusitano nos leitores. Pessoalmente, imaginei um conjunto de académicos, uns envergando batas brancas, outros fumando cachimbos, a examinar demoradamente uma intervenção parlamentar de Catarina Martins, uma proposta de lei do PCP, um discurso de António Costa. Três jornais usaram a formulação “a prestigiada universidade norte-
-americana”, ao passo que outro preferiu “uma das mais prestigiadas universidades dos EUA”, e outro ainda optou por outro adjectivo: “a conceituada universidade norte-americana”. Em qualquer dos casos, fica claro que o prestígio e a conceituação migram do examinador para o examinado, na medida em que um estudioso respeitado só se debruça sobre tópicos extremamente respeitáveis.

Lendo melhor as notícias, percebe-se que um centro de estudos vai organizar um debate subordinado ao tema “Há futuro para a esquerda na Europa?”, e um académico português estará presente para dar o seu ponto de vista. O mais provável é que os americanos queiram saber mais sobre a geringonça porque, nesta altura, estarão especialmente interessados numa solução em que o chefe do governo é o segundo mais votado nas eleições. Não admira. Mas é preciso cuidado: 
a hipersensibilidade de Trump é famosa. Trata-se de uma pessoa que se ofende com rábulas televisivas, peças de teatro e com observações de Meryl Streep. Esse tipo de pessoa melindrosa costuma fazer tudo para cancelar simpósios universitários.